quarta-feira, 21 de março de 2007

Dia Mundial da Poesia

Não gosto muito dos "dias mundiais de...". Aliás, como prova este blog, não preciso deste dia, por exemplo, para falar de poesia. Mas, a poesia sempre teve uma aura mítica, afinal os próprios oráculos em Delfos eram metrificados (embora em Plutarco haja queixas de que só diziam banalidades e estavam cheios de erros de métrica e de estilo, apesar de Apolo ser o chefe das Musas). O Marquês de Santillana, depois de definir o que é a poesia segundo as regras da retórica, defende a superioridade da poesia sobre a prosa:
E qué cosa es la poesía, que en nuestro vulgar gaya sciencia llamamos, syno un fingimiento de cosas útyles, cubiertas o veladas con muy fermosa cobertura, conpuestas, distinguidas y scandidas por cierto cuento, peso e medida?

[...]

E asy faziendo la via de los stoycos, los quales con grande diligencia inquirieron el origine e causa de las cosas, me esfurço a dezir el metro ser antes en tiempo e de mayor perfección e más auctoridad que la soluta prosa.
Esta ideia expressa pelo Marquês de Santillana de que a poesia tem maior prestígio e é mais antiga do que a prosa foi muito popular e durou até ao início do séc. XVIII. Giambattista Vico (1668-1744) defendeu que a linguagem humana começou como poesia, pois as mais antigas manifestações linguísticas eram poéticas (no tempo de Vico ainda não tinham sido descobertas as tábuas de argila sumérias cujo conteúdo era, na sua maioria, registos comerciais e de contabilidade). Também Johann Gottfried Herder (1744-1803) defendeu o mesmo (cf. Peter Seuren, Western Linguistics, Blackwell, pp. 76-77). É uma ideia que está agora completamente esquecida.

Mas o elevado estatuto que o a poesia e o poeta goza mantém-se (aliás como a figura do "intelectual" ou do "escritor"). É claro que, para mim, foram do âmbito da literatura, os poetas são como outra pessoa qualquer, não é por isso que eu considero mais ou menos aquilo que dizem. Digo isto porque, frequentemente, vejo nos meios de comunicação social uma reverência ou um embasbacamento bacoco para com pessoas que têm um qualquer tipo de obra na chamada "cultura", que falam do assunto como se fosse só para mentes brilhantes ou para iniciados ou uma coisa mística. Ora, isto a mim que, por exemplo, gosto muito de poesia irrita-me um pouco.Tive um professor de Introdução aos Estudos Literários que repetia-nos sempre que "letras não são tretas".

A poesia é algo muito diverso, para todos os gostos. Toda a gente pode gostar de poesia. É claro que a seu leitura implica maior esforço, maior estudo, mas não tem que ser propriedade de uns "happy few". E, se há alguma coisa que tem feito mal ao gosto de ler poesia, essa coisa é o Ministério da Educação mais os seus programas de português têm feito com que muita gente odeie poesia.

Enfim, espero apenas que o Dia Mundial da Poesia leve mais algumas pessoas a lerem poesia, mas também a lerem melhor poesia. É que nem tudo que por aí se publica vale muito bem a pena ler.

domingo, 4 de março de 2007

Ainda Macias

Eu sei que prometi escrever sobre Macias, mas o trabalho não me tem deixado ter tempo para acabar o artigo. Mas, já não demora muito mais.