Mostrar mensagens com a etiqueta Poesia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Poesia. Mostrar todas as mensagens

domingo, 23 de novembro de 2008

D. Francisco Manuel de Melo

Faz hoje 400 anos que nasceu D. Francisco Manuel de Melo. Como lembrança deste facto, deixo aqui um dos seu poemas.

Ao Arcanjo são Rafael, pedindo-lhe
dirija sua molesta navegação

Piloto Celestial, Norte divino
Primeiro Tifis, Palinuro belo,
Guiador de Tobias a Gabelo,
Igual luz que do Velho, do Minino

Este madeiro que sem luz, sem tino,
Corta do mundo tanto paralelo,
Que presago se mostra em seu desvelo,
Mais do naufrágio que do porto dino!

Socorrei e guiai, entre as porfias
Dos erros e das sombras que ignorante
O desviam do porto verdadeiro!

Qual como fostes a ambos os Tobias,
Do Pai mèzinha e médico elegante,
Do Filho guia e doce companheiro.

(D. Francisco Manuel de Melo, Poesias Escolhidas, Prefácio, selecção, notas, tábua de concordância e glossário poe José V. de Pina Martins, Editorial Verbo)

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Macias (I) - Dados briográficos possíveis

Cumprindo a promessa de escrever sobre Macias, publico agora o primeiro artigo sobre este poeta, versando sobre os problemas do estabelecimento da sua biografia.

Muito pouco de concreto se sabe da vida de Macias, não se sabendo ao certo em que anos viveu. É um poeta da escola galego-castelhana, isto é, posterior à morte do D. Pedro, conde de Barcelos, em 1354, situando-se na passagem da poesia galego-portuguesa para poesia do séc. XV.

A sua obra não conserva referências que possam ser associadas a factos históricos conhecidos, apenas uma rubrica nos informa de que o poema o “fizo Macias contra el amor, enpero algunos trobadores tizen que la fizo contra el rrey don Pedro” (Cancioneiro de Baena, n.º 308). Tudo o resto provém da tradição, tal como a sua transformação no mártir por amor por excelência, o mais glosado na poesia peninsular nos sécs. XV e XVI.

Cronologicamente, parece ter vivido durante o reinado de Pedro, o Cruel, de Castela (reinou entre 1350 e 1369). Concorre também para esta opinião o facto do Marquês de Santillana (1398-1458) no seu Proemio e carta al condestable don Pedro de Portugal que diz, depois de falar da poesia galego-portuguesa:

Después dellos [dos trovadores galego-portugueses] vinieron Vasco Peres de Camoes e Fernand Casquicio e aquel grande enamorado Macias, del qual no se fallan syno quatro canciones, pero ciertamente amorosas e muy fermosas sentencias, conuiene a saber: Catiuo de miña tristura, Amor cruel e brioso Señora, en quien fiança e Prouey de buscar mesura.

(Marqués de Santillana, Poesias Completas, II, Edición, introducción y notas de Manuel Durán, Madrid: Clásicos Castalia, p. 219)
Vasco Peres de Camões (c. 1330) foi um poeta galego que no final do séc. XIV esteve ao serviço do rei D. Fernando I de Portugal e durante a crise de 1383-1385 tomou o partido de Castela.

Juan Rodriguez del Padrón (1390-1450), poeta galego, conhecido como del Padrón por ter aí nascido, parece sugerir que Macias era galego e, mesmo, da mesma localidade quando liga a sua fama como mártir de amor com a de Macias.

Si te plaze que mis dias
yo fenezca mal logrado
tan en breve
plégate que com Macías
ser meresca sepultado:
y decir deue
do la sepultura sea:
una tierra los crió,
una muerte los leuó,
una gloria los possea.

(in António Paz Y Meliá, Obras de Juan Rodriguez de la Câmara (o del Padrón), Madrid, 1884, p. 13).

A esta definição da possível cronologia biográfica de Macias está também ligada a algumas das versões da tradição que o transformou no representante maior do mártir de amor, que terá uma grande influência na poesia cancioneiril na Península Ibérica. Esse será o próximo capítulo.

quarta-feira, 21 de março de 2007

Dia Mundial da Poesia

Não gosto muito dos "dias mundiais de...". Aliás, como prova este blog, não preciso deste dia, por exemplo, para falar de poesia. Mas, a poesia sempre teve uma aura mítica, afinal os próprios oráculos em Delfos eram metrificados (embora em Plutarco haja queixas de que só diziam banalidades e estavam cheios de erros de métrica e de estilo, apesar de Apolo ser o chefe das Musas). O Marquês de Santillana, depois de definir o que é a poesia segundo as regras da retórica, defende a superioridade da poesia sobre a prosa:
E qué cosa es la poesía, que en nuestro vulgar gaya sciencia llamamos, syno un fingimiento de cosas útyles, cubiertas o veladas con muy fermosa cobertura, conpuestas, distinguidas y scandidas por cierto cuento, peso e medida?

[...]

E asy faziendo la via de los stoycos, los quales con grande diligencia inquirieron el origine e causa de las cosas, me esfurço a dezir el metro ser antes en tiempo e de mayor perfección e más auctoridad que la soluta prosa.
Esta ideia expressa pelo Marquês de Santillana de que a poesia tem maior prestígio e é mais antiga do que a prosa foi muito popular e durou até ao início do séc. XVIII. Giambattista Vico (1668-1744) defendeu que a linguagem humana começou como poesia, pois as mais antigas manifestações linguísticas eram poéticas (no tempo de Vico ainda não tinham sido descobertas as tábuas de argila sumérias cujo conteúdo era, na sua maioria, registos comerciais e de contabilidade). Também Johann Gottfried Herder (1744-1803) defendeu o mesmo (cf. Peter Seuren, Western Linguistics, Blackwell, pp. 76-77). É uma ideia que está agora completamente esquecida.

Mas o elevado estatuto que o a poesia e o poeta goza mantém-se (aliás como a figura do "intelectual" ou do "escritor"). É claro que, para mim, foram do âmbito da literatura, os poetas são como outra pessoa qualquer, não é por isso que eu considero mais ou menos aquilo que dizem. Digo isto porque, frequentemente, vejo nos meios de comunicação social uma reverência ou um embasbacamento bacoco para com pessoas que têm um qualquer tipo de obra na chamada "cultura", que falam do assunto como se fosse só para mentes brilhantes ou para iniciados ou uma coisa mística. Ora, isto a mim que, por exemplo, gosto muito de poesia irrita-me um pouco.Tive um professor de Introdução aos Estudos Literários que repetia-nos sempre que "letras não são tretas".

A poesia é algo muito diverso, para todos os gostos. Toda a gente pode gostar de poesia. É claro que a seu leitura implica maior esforço, maior estudo, mas não tem que ser propriedade de uns "happy few". E, se há alguma coisa que tem feito mal ao gosto de ler poesia, essa coisa é o Ministério da Educação mais os seus programas de português têm feito com que muita gente odeie poesia.

Enfim, espero apenas que o Dia Mundial da Poesia leve mais algumas pessoas a lerem poesia, mas também a lerem melhor poesia. É que nem tudo que por aí se publica vale muito bem a pena ler.

domingo, 28 de janeiro de 2007

Macias, o Namorado

O meu próximo artigo será sobre o poeta Macías, trovador galego de meados do século XIV, mas que devido a uma lenda do séc. XV, em que Macías teria sido morto pelo marido da sua dama, que o transformou no arquétipo de mártir de amor e que fez dele um sujeito recorrente da poesia peninsular do séc. XV.

Alguns dos poemas a ele atribuídos apareceram no Cancioneiro de Baena (1445). Antes de iniciar o artigo, deixo aqui esta cantiga, para primeira amostra.

Cantiga de Macias para su amiga.
     Cativo! de mia tristura
ja todos prenden espanto
3 e preguntan que ventura
é que m' atormenta tanto
que non sei no mundo amigo
6 a quen mais de meu quebranto
diga d' esto que vos digo:
Quen ben see, nunca devia
9 al pensar, que faz folia.
Cuidei sobir en alteza
por cobrar mayor estado,
12 e caí en tal pobreza
que moiro desamparado.
Con pesar e con desejo
15 ben vos direi, mal-fadado,
o que ouço ben e vejo:
Cando o louco cree mais alto
18 sobir, prende mayor salto.
Pero que provei sandece,
por que me dev' a pesar,
21 minna loucura assi crece
que moiro por én trobar.
Pero mais non averei
24 se non ver e desejar,
e por én assi direi:
Quen en carcer sol viver,
27 en carcer deseja morrer.
Minna ventura en demanda
me poso atan dultada,
30 que meu coraçon me manda
que seja sempre negada.
Pero mais non saberán
33 de minna coita lazerada,
e por én assi dirán:
Can ravioso é cousa brava,
36 de seu sennor sei que trava.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

Ainda Dante Alighieri

A Divina Comédia é sem dúvida a obra-prima de Dante e de longe a sua obra mais conhecida, aquela que o tornou conhecido ainda em vida (embora nem sempre pelas melhores razões - havia quem acreditasse que ele tinha estado mesmo no inferno), mas as suas outras obras, que poderíamos considerar como menores e de que a Vita Nuova faz parte, bastariam só por si para assegurar o lugar de Dante entre um dos grandes da literatura italiana em particular e mundial em geral.

O seu tratado de filologia De Vulgari Eloquentia, escrito em latim, composto por dois livros, embora Dante, originalmente, tivesse previsto quatro livros (nunca chegou a escrever os dois últimos), em que exalta a língua vulgar italiana (vulgar para Dante é a língua materna falada pelas pessoas em contraponto com o latim, aprendido, na sua época, pelos doutos).

Como se sabe, no tempo de Dante (e ainda nos séculos seguintes), as línguas nacionais não tinham o mesmo estatuto do que o latim, que era a língua universalmente utilizada por todos aqueles que tinham instrução, para assim se fazerem entender em qualquer ponto da Europa onde estivessem. Isto tinha várias consequências, como, por exemplo, a grande mobilidade dos estudantes universitários que, fossem para onde fossem, encontravam a aulas sempre dadas em latim.

Mas Dante considerou que a língua vulgar tinha a dignidade suficiente para tratar qualquer tema, mesmo os mais elevados. Dante e, mais tarde Petrarca, tiveram uma enorme influência para transformarem o toscano na língua italiana actual, suplantando todos os outros dialectos italianos. A Itália, naquela época (e até ao séc. XIX) não estava unida política, nem sequer linguisticamente. Foi através do prestígio adquirido pelas obras de florentinos influentes como Dante, Petrarca ou Boccacio, que a língua da Toscânia se elevou a padrão nacional da península.

O facto de ter escrito uma obra como a Divina Comédia em italiano, tratando temas profundos e complexos, permitiu que o toscano se elevasse a acima de todos os outros dialectos italianos, pois depois dele Boccaccio e Petrarca também escreveram no mesmo dialecto.

Outras obras de Dante tiveram, também alguma consequências imprevisíveis, por exemplo, após a sua morte, o legado pontifício da Lombardia quis que os restos mortais de Dante, que estavam em Ravena, fossem queimados juntamente com a sua obra De Monarchia, pois esta era considerada herética. Esta obra escrita em latim, em três livros, defendia a separação entre o Papado e o Império. Dante acreditava num Império universal como única modo de garantir a paz. Por isso o poder do Imperador não poderia estar sujeito ao do Papa. De qualquer modo, nem os seus restos mortais, nem a sua obra foram queimados.

Sob o titulo de Rimas reuniram-se todas as poesias escritas por Dante que não fazem parte da Vida Nova e do Convívio (este foi escrito entre os anos de 1304 e 1307 quando Dante estava no exílio, sendo em escrito em vulgar, pois tratava-se de uma obra de divulgação cultural). As Rimas são uma compilação que não foi feita pelo poeta, mas sim por críticos que fizeram um trabalho de pesquisa de poemas de Dante por entre manuscritos, tentando expurgar as falsas atribuições, para acabarem por fazer um espécie de "Cancioneiro" de Dante. Neste Cancioneiro pode assistir-se a amadurecimento poético de Dante, pois temos poemas de juventude como de idade mais avançada.

Dante Alighieri foi sem dúvida um dos grandes escritores de sempre, com uma agitada vida política que o fez exilar de Florença, para onde não voltou mesmo depois de morto, tendo sofrido muito por esse exílio.

Nos autem, cui mundus est patria velut piscibus equor, quanquam Sarnum biberimus ante dentes et Florentiam adeo diligamus ut, quia dileximus, exilium patiamur iniuste, rationi magis quam sensui spatulas nostri iudicii podiamus.

Eu, que tenho por pátria o mundo como os peixes o mar, embora tenha bebido no Arno sendo ainda menino de leite e tanto ame Florença que por seu amor sofro injustamente o exílio, apoio os meus propósitos mais na razão do que no sentimento.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007

Dois sonetos de Dante Alighieri (II)

Da leitura deste poemas, podemos verificar que, a despeito das inovações formais e conceptuais introduzidas pelo Dolce stil nuovo, a descrição da dama não é muito diferente daquela que poderíamos encontrar na poesia galego-portuguesa do séc. XII, visto que esta descrição tem uma quase notável ausência de caracterização fisiossomática.

De qualquer modo e segundo J. V. Pina Martins (ibidem, p. 130):
Dante é porventura, de todos os poetas do Dolce stil nuovo, o mais avesso a complacências sensoriais. (...) Sabemos, por uma tradição digna de crédito, que o Dante vivo era muito sensível à fascinação dos encantos femininos, e mesmo à alegira das experiências fisicamente eróticas, como nos informa Boccaccio, mas na Vita Nuova não era possível serem fixados resíduos de uma tal humanidade, pois Dante movia-se num mundo lírico que não conseguiu revolucionar, como faria depois Petrarca.
De qualquer modo, a poesia do Dolce stil nuovo é uma revolta contra as restrições, convencionalismos e formalismos da poesia provençal. No aspecto formal, a canção, o soneto e a balada substituíram as formas gastas. Há um maior individualismo, uma maior sinceridade na expressão dos sentimentos, que abriu caminho para a revolução protoganizada por Petrarca e os seus Rerum uulgarium fragmenta ou Canzoniere ou Rime Sparse, frequentemente mais conhecidos por Rime.

XXVI

Tanto gentile e tanto onesta pare
La donna mia, quando'ella altrui saluta,
Che'ogne lingua deven tremando muta,
E li occhi no l'ardiscono di guardare.
Ella si va, sentendosi laudare,
Benignamente d'umiltà vestuta;
E par che sia una cosa venuta
Da cielo in terra a miracol mostrare.

Mostrasi si paciente a chi la mira,
Che dà per li occhi una dolcezza al core,
Che 'ntender no la può chi no la prova:
E par che de la sua labbia si mova
Un spirito soave pien d'amore,
Che va dicendo a l'anima: «Sospira».


XXVI

Aparece gentil e tão honesta

Minha senhora quando nos saúda,
Que cada voz, tremendo, fica muda
E os olhos não ousam mesmo olhar.
Vestida de humildade, lá vai ela,
Benignamente ouvindo-se louvar;
E dir-se-ia coisa de espantar
Vindo do céu à terra, num milagre.

Tão agradável surge a quem a vê
Que pelos olhos dá ao coração
Dulçor para entender, de conhecer.
Dos seus lábios parece que desliza
Um sopro de amorosa suavidade
Que vai dizendo à alma, tu, suspira!

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

Dois sonetos de Dante Alighieri (I)

Dante Alighieri (1265-1321) foi um dos primeiros grandes poetas italianos cuja obra mais conhecida, a Divina Comédia, é também considerada, por muitos, a primeira grande obra em língua italiana (do dialecto da Toscânia que por força do prestígio das obras literárias feitas nesta língua se estendeu a língua padrão da península itálica.

Mas a sua influência também se alastrou a outros géneros líricos, apesar de serem menos notados. Quando Sá de Miranda, na senda de Boscán e Garcilaso em Espanha, introduziu as formas petrarquistas, muita gente esquece que o próprio Petrarca tinha sido influenciado pelos poetas do Dolce stil nuovo (ele próprio influenciado pela lírica siciliana) do final do séc. XIII e de que Dante, juntamente Guinizelli, Cavalcanti ou Frescobaldi também fazia parte.

Mas o que era o Dolce stil nuovo? Segundo Pina Martins (Cultura Italiana, Editorial Verbo, 1971):
É sabido que esta designação foi cunhada por Dante Alighieri no XXVI canto do Purgatório, verso 57, nas palavras pelo poeta atribuídas a Buonagiunta: «Di qua dal dolce stil novo ch'iodo», que já representam a consciência de uma nova maneira de poetar e de exprimir pela poesia.
Esta "nova maneira de poetar" foi elevada à máxima perfeição por Petrarca. Nos finais do séc. XV e na primeira metade do séc. XVI o petraquismo estendeu-se pela Europa tendo entrado na península Ibérica, não sem polémica por parte dos defensores das formas tradicionais de expressão poética (aquela que está presente, por exemplo, no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende) e que no século XVI começaram a chamar "medida velha" (talvez de uma forma depreciativa), sendo a medida nova os poemas em metros e formas italianas.

Voltemos a Dante. Tinha 9 anos quando viu pela primeira vez Beatriz, filha de um rico burguês de Florença. Esta Beatriz morreu precocemente em 1290 e, em 1293, Dante publica a sua obra "Vita Nuova", umm volume onde reuniu os poemas, escritos entre 1283 e 1293, com comentários, divididos em 42 breves capítulos.

O primeiro dos sonetos que escolhi é o seguinte:

XXI
Ne li occhi porta la mia donna Amore,
Per che si fa gentil ciò ch'ella mira;
Ov'ella passa, ogn'om ver lei si gira,
E cui saluta fa tremar lo core.
Si che, bassando il viso, tutto amore,
E d'ogni suo difetto allor sospira:
Fugge dinanzi a lei superbia ed ira.
Aiutatermi, donne, farle onore.

Ogne dolcezza, ogne pensero umile
Nasce nel core a chi parlar la sente,
Ond'è laudato chi prima la vide.
Quel ch'ella par quando un poco sorride,
Non si po dicer nè temer a mente,
Si è novo miracolo e gentile


Tradução de José V. Pina Martins:

Nos olhos traz a minha dama Amor,
Assim o que ela olha se enobrece;
Quando ela passa, todo o olhar a segue
E a quem saúda o coração estremece.
Tal que, baixando o rosto, desfalece,
De todo o seu defeito então suspira;
Perante ela se vão soberba e ira.
Senhoras, ajudai-me a enaltecê-la.

Toda a doçura, humílimo pensar
No peito nasce a quem a ouvir falar;
Louvado seja aquele que a reconhece!
O que ao sorrir um pouco ela parece
Não se pode dizer nem recordar,
Pois é milagre novo e para honrar.

(continua)

sábado, 9 de abril de 2005

Charles Baudelaire

A 9 (ou, segundo alguns, a 7) de Abril, nasceu em Paris Charles Baudelaire, o "primeiro maldito" segundo Verlaine ou o "grande vidente" para Rimbaud. Pai espiritual de poetas de várias escolas literárias que se lhe seguiram, influenciou grande parte da literatura do séc. XIX e mesmo do início do séc. XX em França, mas não só (em Portugal por exemplo).

Mas o que o tornou célebre, foi o processo originado pela publicação do seu livro "Les fleurs du mal", por atentado aos bons costumes e ataques à religião, que acabou na condenação pelo tribunal de Paris, a 20 de Agosto de 1857, a pagar pesadas multas e ordenada a supressão de 6 poemas considerados obscenos, embora a as multas tenham sido posteriormente fortemente reduzidas. Mas Baudelaire foi reabilitado definitivamente em Justiça em 31 de Maio de 1949 (sim, 1949, não é engano), por acórdão da Cour de Cassation (o Supremo Tribunal de Justiça francês).

Mas, mais do que dados biográficos de Baudelaire, o mais importante é a sua poesia. E entre os seus poemas mais conhecidos está "L'albatros", onde Baudelaire declara a sua concepção de "poeta", uma concepção marcadamente romântica, de ser excepcional de mal como mundo, um ser incompreendido.

L'ALBATROS

Souvent, pour s'amuser, les hommes d'équipage
Prennent des albatros, vastes oiseaux des mers,
Qui suivent, indolents compagnons de voyage,
La navire glissant sur les gouffres amers.

À peine les ont-ils déposés sur les planches,
Que ces rois de l'azur, maladroits et honteux,
Laissent piteusement leurs grandes ailes blanches
Comme des avirons traîner à côté d'eux.

Ce voyageur ailé, comme il est gauche et veule!
Lui, naguère si beau, qu'il est comique et laid!
L'un agace son bec avec un brûle-gueule,
L'autre mime, en boitant, l'infirme qui volait!

Le Poëte est semblable au prince des nuées
Qui hante la tempête et se rit de l'archer;
Exilé sur le sol au milieu de huées,
Ses ailes de géant l'empêchent de marcher.

Voltarei a Baudelaire em breve.

sexta-feira, 18 de março de 2005

Em defesa do "Velho do Restelo"

Não deve haver na literatura portuguesa personagem mais difamada. Por tudo e por nada chama-se a alguém "Velho do Restelo": "és um velho do Restelo", "só os velhos do Restelo é que pensam assim", "os velhos do Restelo do costume" e por aí fora....

Ou seja, o Velho do Restelo surge como metáfora, comparação, símbolo, epíteto (eu sei lá..., escolham mais algumas figuras de estilo) daqueles que, supostamente, são "botas-de-elástico", "retrógados", "inimigos do progressos", etc..., etc..., etc...

No entanto, esta reputação é de todo imerecida e - não tendo eu feito qualquer investigação sobre o assunto e, por isso, não sabendo da origem da expressão com o sentido que ela tem actualmente -, francamente, só pode ser utilizada por quem não leu com atenção o chamado "Episódio do Velho do Restelo", Canto IV, 94-104, dos Lusíadas, ou por quem deu conta de idênticas dúvidas sobre a chamada "Empresa da Índias" como, por exemplo, Gil Vicente ou Sá de Miranda.

Qual a justificação desta minha afirmação? O próprio texto dos Lusíadas, e não entrando aqui em considerando quanto a função e aos antecedentes deste tipo de episódio na história da literatura desde a Antiguidade, em que o Velho do Restelo é apresentado como sendo alguém muito digno : "Mas um velho de aspeito venerando," (Est. 94, v. 1) e "C'um saber só de experiências feito,/Tais palavras tirou do experto peito:" (Est. 94, vv. 7-8).

A seguir, o discurso do Velho do Restelo é uma reflexão filosófica sobre a empresa das Índias e que ele condena não por qualquer alergia ao progresso, mas por a considerar apenas comandade pela cobiça e que o custo de tal operação será muito mais elevado do que as suas vantagens, devido às consequências nefastas que terá na sociedade portuguesa.

Também rejeita o fundamento de "dilatar a Fé e o Império", pois se queriam combater o Infiel (os muçulmanos) tinham o Norte de África para o fazer, onde poderiam obter a fama, glória e riquezas que buscavam no Oriente longínquo.

O Velho do Restelo mais do que representar uma facção retrógada, alérgica ao progresso, representa uma parte da sociedade portuguesa, da alta nobreza, que dava, por razões ideológicas (e religiosas), uma importância maior ao nossos domínios no Norte de África, pois era aí que os filhos da alta nobreza normalmente terçavam pela primeira vez as armas.

Por outro lado, a empresa das Índias foi muito mais uma acção conduzida pela pequena e média nobreza que, nunca podendo alcandorar-se aos altos cargos no Norte de África, viu nesta empresa um meio de poder singrar na vida.

Mas, como eu disse mais acima, com o "Velho do Restelo" Camões deu voz nos Lusíadas (e lembremo-nos que os Lusíadas foram compostos dezenas de anos depois da Viagem do Gama), a esta facção contemporânea da viagem que estava contra a sua relização. Mas, já antes de Camões, Gil Vicente e Sá de Miranda tinham expressado as suas dúvidas sobre a nossa presença no Oriente.

No caso de Gil Vicente, basta reler o "Auto da Índia", de 1509 note-se, Gil Vicente critica o impacto das expedições ao Oriente na sociedade, da infidelidade feminica provocada pela ausência dos maridos, da cobiça do portugueses na Índia, sobretudo dos capitães, e da ilusão que criava nos soldados que regressavam de mão a abanar(vv.493-497):
Lá vos digo que ha fadigas,
Tantas mortes, tantas brigas,
E p'rigos descompassados,
Que assi vimos destroçados.
Pelados como formigas."
A mitologia oficial dos heróis dos Descobrimentos é logo aqui posta a nu.

Também Sá de Miranda (1481-1558), exprimiu semelhantes dúvidas sobre as vantagens de manter as possessões no Oriente, na famosa Carta a "António Pereira, senhor do Basto, quando se partiu para a Côrte co a casa tôda"(Edição Sá da Costa):
Não me temo de Castela,
donde inda guerra não soa;
mas temo-me de Lisboa,
que, ao cheiro desta canela,
o Reino nos despovoa.
Sá de Miranda, humanista, homem conhecedor da Europa e do que se passava no seu tempo, sentia o Oriente como causa de decadência do Reino.

Quando Camões escreveu os seus Lusíadas, havia já uma grande contestação ao modo como D. João III tinha dado prioridade à Índia, em comparação com o abandono de algumas das possessões africanas. lembremo-nos que, em parte, as posições do Velho do Restelo seriam as posições do próprio Camões, pois este insta D. Sebastião, no início e no fim dos Lusíadas, a fazer guerra em África contra os mouros (um resquício ainda do espírito de Cruzada e dos ideais de Cavalaria), aliás também partilhados, por exemplo, por Gil Vicente, no final do Auto da Barca do Inferno (os Cavaleiros mortos em África que vão directos para a Barca da Glória).

Em conclusão, o Velho do Restelo não representa uma opinião reaccionária, contra o progresso, mas apenas, uma opinião, bastante ancorada na sociedade portuguesa quinhentista, que duvidava, por diversos motivos, das vantagens da aventura oriental, das conquistas no Índico, chegando-lhe a atribuir as causas da decadência de Portugal. No eloquente discurso (cheio de processos retóricos que remontam a Homero) do Velho do Restelo, misturam-se as ideias de um Humanismo antibelicista, abrindo excepção a este antibelicismo à guerra com os Mouros.

Por isso não chamem Velho do Restelo àqueles que se opõe ao progresso ou que são, pura e simplesmente, refractários ao progresso, pois do que se trata aqui é de uma diferente avaliação do deve-haver da aventura imperial na Índia.

Post-scriptum. Esta entrada foi sugerida pela contínua audição, em diferentes circunstâncias, da expressão "Velho do Restelo" no sentido que eu contesto aqui.

Post-scriptum 2. O que eu digo aqui nem sequer prima pela originalidade, pois os programas do 10º ano (não estou a falar do actual), já pediam aos alunos para relacionar o Episódio do Velho do Restelo com o Auto da Índia. Todavia, o problema é que a expressão cristalizou o seu sentido.

quinta-feira, 17 de março de 2005

Camilo de Castelo Branco (1825-1890)

Ontem, por motivos de trabalho, não me foi possível assinalar os 180 anos do nascimento de Camilo de Castelo Branco (16-03-1825), uma das figuras de proa da segund ageração romântica. Um dos nossos maior romancistas, ou melhor novelista (e também contista), conhecido pela sua prosa, também experimentou outros géneros literários, como a poesia ou o teatro, para além da crítica e história literária, o jornalismo, por exemplo.

Não quero aqui, fazer qualquer estudo sobre a obra de Camilo, apenas assinalar, a data do seu nascimento através de um exemplo poético da sua obra, porque penso que esta faceta de Camilo é largamenbte desconhecida da maior parte das pessoas. É certo que não se pode comparar com a sua fcate de prosador, mas mesmo assim tem o seu interesse, mantendo, por exemplo, a ironia que o caracterizou.

Os meus amigos

Amigos cento e dez e talvez mais
Eu já vos contei! Vaidades que eu sentia!
Pensei que sobre a terra não havia
Mais ditoso mortal entre os mortais.

Amigos cento e dez, tão serviçais,
Tão zelosos das leis da cortesia,
Que eu já farto de os ver, me escapulia,
Às suas curvaturas vertebrais.

Um dia adoeci profundamente,
Ceguei. Dos cento e dez, houve um somente
Que não desfez os laços quase rotos.

Que vamos nós (diziam) lá fazer?
se ele está cego, não nos pode ver...
Que cento e nove impávidos marotos!



sexta-feira, 25 de fevereiro de 2005

Os 150 anos de Cesário Verde

Quando em Dezembro do ano passado se passaram os 150 anos da morte de Almeida Garrett houve quem criticasse (e com justiça) a Câmara Municipal do Porto, e não só, por praticamente ignorar essa data. Ora, hoje passam 150 anos sobre o nascimento de um dos maiores poetas portugueses de todos os tempos: Cesário Verde. Sinceramente não sei se alguém na Câmara Municipal de Lisboa se lembrou desta data, mas se o não fez deveria fazê-lo, pois poeta foi um dos grandes poetas da cidade Lisboa.
José Joaquim Cesário Verde nasceu em Lisboa a 25 de Fevereiro de 1855, no dia consagrado pela Igreja Católica a São Cesário, filho de um casal abastado de comerciantes, com loja de ferragens aberta ao público na Rua dos Fanqueiros. Para além disso, o pai de Cesário Verde herdou de um tio uma quinta em Linda-a-Pastora. Naturalmente, toda a educação do futuro poeta foi orientada segundo os projectos familiares, tendo aos 17 anos iniciado a sua carreira profissional na loja do pai.
E quanto às letras? Como terá surgido a vocação? Sabemos apenas que em 1873 se matriculou como aluno voluntário no Curso Superior de Letras. O curso, se é que o seguiu, pelo menos não fez os exames, não teve qualquer influência na sua vida profissional nem na sua obra. Todavia, foi na frequência deste curso que encontrou Silva Pinto, que ficou seu amigo para toda a vida. A sua produção poética estendeu-se de 1873 até à sua morte em 1886, isto é, 13 breve anos. Mas foi quanto bastou para ser um dos maiores poetas portugueses dos últimos 150 anos.
Cesário Verde não publicou qualquer livro em vida. Os seus primeiros poemas publicados (3) foram-no no Diário de Notícias, por mão de Eduardo Coelho, director do jornal, que tinha sido antigo caixeiro do pai de Cesário. Por sua vez, Silva Pinto publica mais alguns poemas no portuense Diário da Tarde.
Em 1873 ou 74, Cesário teria projectado a publicação de um livro intitulado Cânticos do Realismo ou Ecos do Realismo. Todavia, este projecto não foi para a frente. É que, ao contrário do que acontece hoje, a sua obra sofreu de indiferença geral ou mesmo de incompreensão. Os seus contemporâneos não tinham uma opinião muito elogiosa sobre ela.
Teófilo Braga, referindo-se ao poema Esplêndida, disse “que um poeta amante e moderno devia ser trabalhador e não devia rebaixar-se assim”. E porquê? Este poema, publicado em 22 de Março de 1874, termina assim:
E daria, contente e voluntário,
A minha independência e o meu porvir,
Para ser, eu poeta solitário,
Para ser, ó princesa sem sorrir,
Teu pobre trintanário.
E aos almoços magníficos do Mata
Prefiriria ir, fardado, aí
Ostentando galões de velha prata,
E de costas voltadas para ti
Formosa aristocrata.
Nunca o positivista Teófilo poderia suportar tal. Todavia, neste poema, não se pode admitir uma leitura do sujeito poético em moldes românticos. Há que assumir o fingimento poético, este sujeito não é para ser lido como projecção do autor. Tal não foi, obviamente, compreendido por Teófilo, que estabelece uma identidade entre autor/sujeito poético. Ora, esta relação pode existir ou não, mas Teófilo pensava ainda em moldes românticos.
Mas também Ramalho Ortigão n’As Farpas o critica vivamente, aconselhando-o a tornar-se “menos verde e mais Cesário”. Fialho de Almeida também não o poupou. No entanto, Cesário reconciliar-se-ia mais tarde quer com Ramalho quer com Fialho.
De notar que o próprio Cesário Verde era republicano, positivista e agnóstico, e que frequentemente integra a questão social nos seus poemas. Mas a ideia que imperava na época do que a poesia deveria ser não se coadunava com a poesia de Cesário que, por exemplo, retratava o quotidiano da cidade, as pessoas, profissões ou lugares de uma forma que era considerada pouco poética. O mesmo poeta que escreveu Esplêndida, escreveu Deslumbramentos, publicado em Fevereiro de 1875 no Mosaico de Coimbra, que termina assim:
Mas cuidado, milady, não se afoite,
Que hão-de acabar os bárbaros reais;
E os povos humilhados, pela noite,
Para a vingança aguçam os punhais.
E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas,
Sob o cetim do Azul e as andorinhas,
Eu hei-de ver errar, alucinadas,
E arrastando farrapos – as rainhas!
Este passo parece um reflexo da ideia anteriana da poesia como Voz da Revolução e da retoma da função social da poesia da 1.ª geração romântica que Antero fez e que se tinha perdido, na sua maior parte, com o Ultra-romantismo.
De qualquer modo, a indiferença e a incompreensão com que a sua obra foi acolhida, mesmo por aqueles que politicamente lhe estavam mais próximos, provocaram-lhe outras decepções. Por exemplo, Teófilo Braga não o incluiu numa antologia de poesia, Parnaso Português Moderno (1877), antologia essa que representaria, supostamente, as novas tendências da poesia. Aliás, mais tarde, na sua obra As modernas ideias na Literatura Portuguesa (1892), Teófilo volta a não referir Cesário Verde.
A sua poesia reflecte frequentemente esta decepção pela incompreensão da sua obra (Contrariedades):
A crítica segundo o método de Taine
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A imprensa
Vale um desdém solene.
(…)
Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
Me negam as colunas.
Todavia, também não admira que a obra de Cesário não tivesse tido uma boa recepção: não publicou livros em vida, morreu jovem, a sua obra foge a qualquer classificação muito rígida, não optou exclusivamente por qualquer escola. Deste modo a sua poesia é caracterizada como realista, mas também como simbolista, parnasiana, pré-modernista, romântica e até surrealista (avant la lettre, é claro).
Por outro lado, temos que ver a situação particular do poeta. Cesário era um empregado do comércio que se dedicava à poesia. Por esse motivo, não pertencia aos círculos literários da época, o que também não facilitou a sua recepção. Depois da sua morte, em 19 de Julho de 1886, com apenas 31 anos, o seu amigo Silva Pinto, a expensas suas, fez publicar cerca de 50% das suas poesias, numa edição não comercial de 200 exemplares, segundo um critério editorial ainda hoje discutido (terá sido do poeta ou exclusivamente de Silva Pinto).
A poesia de Cesário é redescoberta no séc. XX e influencia o modernismo bem como grande parte da poesia do século. Fernando Pessoa, na sua poesia, através de Alberto Caeiro e Álvaro de Campos considera-o como um dos seus mestres. Mas Pessoa em textos teóricos também o considera como mestre e precursor. Assim num texto sem data (publicado em Colóquio-Letras, n.º 8, Julho de 1972 e transcrito António Quadros, Páginas sobre Literatura e Estética, Europa-América), Pessoa escreve:
Houve em Portugal, no século dezanove, três poetas, e três somente, a quem legitimamente compete a designação de mestres. São eles, por ordem de idades, Antero de Quental, Cesário Verde e Camilo Pessanha. Com a excepção de Antero, todavia dubitativamente aceite e extremamente combatido, coube a todos os três a sorte normal dos mestres – a incompreensão em vida, nos mesmos (como em Byron, derivando de Wordsworth e combatendo-o) sobre quem exerceram influência.
Num outro texto, datado de 11-11-1934, publicado na mesma revista e transcrito na mesmo livro, Pessoa volta a escrever:
O segundo [Cesário Verde] ensinou a observar em verso; descobriu-nos a verdade de que o ser cego, ainda que Homero em lenda o fosse e Milton em verdade se tornasse, não é qualidade necessária a quem faz poemas.
Num texto presumivelmente datado de 1916 e transcrito por António Quadros (op. cit.), Pessoa considera Cesário como um precursor do Sensacionismo:
[O Sensacionismo] Tem só 3 poetas e tem um precursor inconsciente. Esboçou-o levemente, sem querer, Cesário Verde.
A poesia de Cesário tem presentes alguns dos objectivos da poética de Antero, como a ligação do lirismo à ideia de justiça. No entanto, esta ligação faz-se de um modo diferente, pois Cesário está contaminado pela técnica analítica do romance naturalista. Cesário é essencialmente o poeta da observação, não das questões gerais.

Por outro lado, Cesário é anti-sentimentalista pois sofre uma forte influência do parnasianismo (por exemplo, procura o tom neutro, não exaltado ou veemente dos românticos, próprio dessa poética), mas não é um parnasiano, pois ao lado descritivista ele alia ao formalismo à intervenção social e as condições sociais (os parnasianos defendiam o indiferentismo perante o social e a Arte pela Arte).

Muitos outros temas das poesia de Cesário poderiam ser abordadas: a poetização do real, o tempo e a morte, a imagética feminina, o binómio cidade/campo, mas não foi o meu objectivo neste artigo, pois não pretendi com esta breve exposição explicar as características principais da poesia de Cesário Verde, nem sequer em ser original, mas apenas evocar o poeta incompreendido pelos seus contemporâneos e a quem a posteridade lhe concedeu, muito justamente, uma fama muito superior àquela que teve em vida.
De muito dos poetas mais lidos naqueles tempos, como por exemplo, Tomás Ribeiro ou Pinheiro Chagas,  se lê alguma coisa regularmente hoje em dia? De personagens importantes no mundo da literatura da época como Teófilo Braga, o que resta hoje?
Cesário, na minha opinião, juntamente com Camilo Pessanha e Fernando Pessoa forma a  trindade maior dos poetas portugueses dos últimos 150 anos. Embora Portugal tenha tido outros excelentes poetas durante este tempo, todos esse não jogam (e aí vai uma metáfora futebolística) na mesma divisão.