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segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Macias (I) - Dados briográficos possíveis

Cumprindo a promessa de escrever sobre Macias, publico agora o primeiro artigo sobre este poeta, versando sobre os problemas do estabelecimento da sua biografia.

Muito pouco de concreto se sabe da vida de Macias, não se sabendo ao certo em que anos viveu. É um poeta da escola galego-castelhana, isto é, posterior à morte do D. Pedro, conde de Barcelos, em 1354, situando-se na passagem da poesia galego-portuguesa para poesia do séc. XV.

A sua obra não conserva referências que possam ser associadas a factos históricos conhecidos, apenas uma rubrica nos informa de que o poema o “fizo Macias contra el amor, enpero algunos trobadores tizen que la fizo contra el rrey don Pedro” (Cancioneiro de Baena, n.º 308). Tudo o resto provém da tradição, tal como a sua transformação no mártir por amor por excelência, o mais glosado na poesia peninsular nos sécs. XV e XVI.

Cronologicamente, parece ter vivido durante o reinado de Pedro, o Cruel, de Castela (reinou entre 1350 e 1369). Concorre também para esta opinião o facto do Marquês de Santillana (1398-1458) no seu Proemio e carta al condestable don Pedro de Portugal que diz, depois de falar da poesia galego-portuguesa:

Después dellos [dos trovadores galego-portugueses] vinieron Vasco Peres de Camoes e Fernand Casquicio e aquel grande enamorado Macias, del qual no se fallan syno quatro canciones, pero ciertamente amorosas e muy fermosas sentencias, conuiene a saber: Catiuo de miña tristura, Amor cruel e brioso Señora, en quien fiança e Prouey de buscar mesura.

(Marqués de Santillana, Poesias Completas, II, Edición, introducción y notas de Manuel Durán, Madrid: Clásicos Castalia, p. 219)
Vasco Peres de Camões (c. 1330) foi um poeta galego que no final do séc. XIV esteve ao serviço do rei D. Fernando I de Portugal e durante a crise de 1383-1385 tomou o partido de Castela.

Juan Rodriguez del Padrón (1390-1450), poeta galego, conhecido como del Padrón por ter aí nascido, parece sugerir que Macias era galego e, mesmo, da mesma localidade quando liga a sua fama como mártir de amor com a de Macias.

Si te plaze que mis dias
yo fenezca mal logrado
tan en breve
plégate que com Macías
ser meresca sepultado:
y decir deue
do la sepultura sea:
una tierra los crió,
una muerte los leuó,
una gloria los possea.

(in António Paz Y Meliá, Obras de Juan Rodriguez de la Câmara (o del Padrón), Madrid, 1884, p. 13).

A esta definição da possível cronologia biográfica de Macias está também ligada a algumas das versões da tradição que o transformou no representante maior do mártir de amor, que terá uma grande influência na poesia cancioneiril na Península Ibérica. Esse será o próximo capítulo.

domingo, 28 de janeiro de 2007

Macias, o Namorado

O meu próximo artigo será sobre o poeta Macías, trovador galego de meados do século XIV, mas que devido a uma lenda do séc. XV, em que Macías teria sido morto pelo marido da sua dama, que o transformou no arquétipo de mártir de amor e que fez dele um sujeito recorrente da poesia peninsular do séc. XV.

Alguns dos poemas a ele atribuídos apareceram no Cancioneiro de Baena (1445). Antes de iniciar o artigo, deixo aqui esta cantiga, para primeira amostra.

Cantiga de Macias para su amiga.
     Cativo! de mia tristura
ja todos prenden espanto
3 e preguntan que ventura
é que m' atormenta tanto
que non sei no mundo amigo
6 a quen mais de meu quebranto
diga d' esto que vos digo:
Quen ben see, nunca devia
9 al pensar, que faz folia.
Cuidei sobir en alteza
por cobrar mayor estado,
12 e caí en tal pobreza
que moiro desamparado.
Con pesar e con desejo
15 ben vos direi, mal-fadado,
o que ouço ben e vejo:
Cando o louco cree mais alto
18 sobir, prende mayor salto.
Pero que provei sandece,
por que me dev' a pesar,
21 minna loucura assi crece
que moiro por én trobar.
Pero mais non averei
24 se non ver e desejar,
e por én assi direi:
Quen en carcer sol viver,
27 en carcer deseja morrer.
Minna ventura en demanda
me poso atan dultada,
30 que meu coraçon me manda
que seja sempre negada.
Pero mais non saberán
33 de minna coita lazerada,
e por én assi dirán:
Can ravioso é cousa brava,
36 de seu sennor sei que trava.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

Ainda Dante Alighieri

A Divina Comédia é sem dúvida a obra-prima de Dante e de longe a sua obra mais conhecida, aquela que o tornou conhecido ainda em vida (embora nem sempre pelas melhores razões - havia quem acreditasse que ele tinha estado mesmo no inferno), mas as suas outras obras, que poderíamos considerar como menores e de que a Vita Nuova faz parte, bastariam só por si para assegurar o lugar de Dante entre um dos grandes da literatura italiana em particular e mundial em geral.

O seu tratado de filologia De Vulgari Eloquentia, escrito em latim, composto por dois livros, embora Dante, originalmente, tivesse previsto quatro livros (nunca chegou a escrever os dois últimos), em que exalta a língua vulgar italiana (vulgar para Dante é a língua materna falada pelas pessoas em contraponto com o latim, aprendido, na sua época, pelos doutos).

Como se sabe, no tempo de Dante (e ainda nos séculos seguintes), as línguas nacionais não tinham o mesmo estatuto do que o latim, que era a língua universalmente utilizada por todos aqueles que tinham instrução, para assim se fazerem entender em qualquer ponto da Europa onde estivessem. Isto tinha várias consequências, como, por exemplo, a grande mobilidade dos estudantes universitários que, fossem para onde fossem, encontravam a aulas sempre dadas em latim.

Mas Dante considerou que a língua vulgar tinha a dignidade suficiente para tratar qualquer tema, mesmo os mais elevados. Dante e, mais tarde Petrarca, tiveram uma enorme influência para transformarem o toscano na língua italiana actual, suplantando todos os outros dialectos italianos. A Itália, naquela época (e até ao séc. XIX) não estava unida política, nem sequer linguisticamente. Foi através do prestígio adquirido pelas obras de florentinos influentes como Dante, Petrarca ou Boccacio, que a língua da Toscânia se elevou a padrão nacional da península.

O facto de ter escrito uma obra como a Divina Comédia em italiano, tratando temas profundos e complexos, permitiu que o toscano se elevasse a acima de todos os outros dialectos italianos, pois depois dele Boccaccio e Petrarca também escreveram no mesmo dialecto.

Outras obras de Dante tiveram, também alguma consequências imprevisíveis, por exemplo, após a sua morte, o legado pontifício da Lombardia quis que os restos mortais de Dante, que estavam em Ravena, fossem queimados juntamente com a sua obra De Monarchia, pois esta era considerada herética. Esta obra escrita em latim, em três livros, defendia a separação entre o Papado e o Império. Dante acreditava num Império universal como única modo de garantir a paz. Por isso o poder do Imperador não poderia estar sujeito ao do Papa. De qualquer modo, nem os seus restos mortais, nem a sua obra foram queimados.

Sob o titulo de Rimas reuniram-se todas as poesias escritas por Dante que não fazem parte da Vida Nova e do Convívio (este foi escrito entre os anos de 1304 e 1307 quando Dante estava no exílio, sendo em escrito em vulgar, pois tratava-se de uma obra de divulgação cultural). As Rimas são uma compilação que não foi feita pelo poeta, mas sim por críticos que fizeram um trabalho de pesquisa de poemas de Dante por entre manuscritos, tentando expurgar as falsas atribuições, para acabarem por fazer um espécie de "Cancioneiro" de Dante. Neste Cancioneiro pode assistir-se a amadurecimento poético de Dante, pois temos poemas de juventude como de idade mais avançada.

Dante Alighieri foi sem dúvida um dos grandes escritores de sempre, com uma agitada vida política que o fez exilar de Florença, para onde não voltou mesmo depois de morto, tendo sofrido muito por esse exílio.

Nos autem, cui mundus est patria velut piscibus equor, quanquam Sarnum biberimus ante dentes et Florentiam adeo diligamus ut, quia dileximus, exilium patiamur iniuste, rationi magis quam sensui spatulas nostri iudicii podiamus.

Eu, que tenho por pátria o mundo como os peixes o mar, embora tenha bebido no Arno sendo ainda menino de leite e tanto ame Florença que por seu amor sofro injustamente o exílio, apoio os meus propósitos mais na razão do que no sentimento.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007

Dois sonetos de Dante Alighieri (II)

Da leitura deste poemas, podemos verificar que, a despeito das inovações formais e conceptuais introduzidas pelo Dolce stil nuovo, a descrição da dama não é muito diferente daquela que poderíamos encontrar na poesia galego-portuguesa do séc. XII, visto que esta descrição tem uma quase notável ausência de caracterização fisiossomática.

De qualquer modo e segundo J. V. Pina Martins (ibidem, p. 130):
Dante é porventura, de todos os poetas do Dolce stil nuovo, o mais avesso a complacências sensoriais. (...) Sabemos, por uma tradição digna de crédito, que o Dante vivo era muito sensível à fascinação dos encantos femininos, e mesmo à alegira das experiências fisicamente eróticas, como nos informa Boccaccio, mas na Vita Nuova não era possível serem fixados resíduos de uma tal humanidade, pois Dante movia-se num mundo lírico que não conseguiu revolucionar, como faria depois Petrarca.
De qualquer modo, a poesia do Dolce stil nuovo é uma revolta contra as restrições, convencionalismos e formalismos da poesia provençal. No aspecto formal, a canção, o soneto e a balada substituíram as formas gastas. Há um maior individualismo, uma maior sinceridade na expressão dos sentimentos, que abriu caminho para a revolução protoganizada por Petrarca e os seus Rerum uulgarium fragmenta ou Canzoniere ou Rime Sparse, frequentemente mais conhecidos por Rime.

XXVI

Tanto gentile e tanto onesta pare
La donna mia, quando'ella altrui saluta,
Che'ogne lingua deven tremando muta,
E li occhi no l'ardiscono di guardare.
Ella si va, sentendosi laudare,
Benignamente d'umiltà vestuta;
E par che sia una cosa venuta
Da cielo in terra a miracol mostrare.

Mostrasi si paciente a chi la mira,
Che dà per li occhi una dolcezza al core,
Che 'ntender no la può chi no la prova:
E par che de la sua labbia si mova
Un spirito soave pien d'amore,
Che va dicendo a l'anima: «Sospira».


XXVI

Aparece gentil e tão honesta

Minha senhora quando nos saúda,
Que cada voz, tremendo, fica muda
E os olhos não ousam mesmo olhar.
Vestida de humildade, lá vai ela,
Benignamente ouvindo-se louvar;
E dir-se-ia coisa de espantar
Vindo do céu à terra, num milagre.

Tão agradável surge a quem a vê
Que pelos olhos dá ao coração
Dulçor para entender, de conhecer.
Dos seus lábios parece que desliza
Um sopro de amorosa suavidade
Que vai dizendo à alma, tu, suspira!

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

Dois sonetos de Dante Alighieri (I)

Dante Alighieri (1265-1321) foi um dos primeiros grandes poetas italianos cuja obra mais conhecida, a Divina Comédia, é também considerada, por muitos, a primeira grande obra em língua italiana (do dialecto da Toscânia que por força do prestígio das obras literárias feitas nesta língua se estendeu a língua padrão da península itálica.

Mas a sua influência também se alastrou a outros géneros líricos, apesar de serem menos notados. Quando Sá de Miranda, na senda de Boscán e Garcilaso em Espanha, introduziu as formas petrarquistas, muita gente esquece que o próprio Petrarca tinha sido influenciado pelos poetas do Dolce stil nuovo (ele próprio influenciado pela lírica siciliana) do final do séc. XIII e de que Dante, juntamente Guinizelli, Cavalcanti ou Frescobaldi também fazia parte.

Mas o que era o Dolce stil nuovo? Segundo Pina Martins (Cultura Italiana, Editorial Verbo, 1971):
É sabido que esta designação foi cunhada por Dante Alighieri no XXVI canto do Purgatório, verso 57, nas palavras pelo poeta atribuídas a Buonagiunta: «Di qua dal dolce stil novo ch'iodo», que já representam a consciência de uma nova maneira de poetar e de exprimir pela poesia.
Esta "nova maneira de poetar" foi elevada à máxima perfeição por Petrarca. Nos finais do séc. XV e na primeira metade do séc. XVI o petraquismo estendeu-se pela Europa tendo entrado na península Ibérica, não sem polémica por parte dos defensores das formas tradicionais de expressão poética (aquela que está presente, por exemplo, no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende) e que no século XVI começaram a chamar "medida velha" (talvez de uma forma depreciativa), sendo a medida nova os poemas em metros e formas italianas.

Voltemos a Dante. Tinha 9 anos quando viu pela primeira vez Beatriz, filha de um rico burguês de Florença. Esta Beatriz morreu precocemente em 1290 e, em 1293, Dante publica a sua obra "Vita Nuova", umm volume onde reuniu os poemas, escritos entre 1283 e 1293, com comentários, divididos em 42 breves capítulos.

O primeiro dos sonetos que escolhi é o seguinte:

XXI
Ne li occhi porta la mia donna Amore,
Per che si fa gentil ciò ch'ella mira;
Ov'ella passa, ogn'om ver lei si gira,
E cui saluta fa tremar lo core.
Si che, bassando il viso, tutto amore,
E d'ogni suo difetto allor sospira:
Fugge dinanzi a lei superbia ed ira.
Aiutatermi, donne, farle onore.

Ogne dolcezza, ogne pensero umile
Nasce nel core a chi parlar la sente,
Ond'è laudato chi prima la vide.
Quel ch'ella par quando un poco sorride,
Non si po dicer nè temer a mente,
Si è novo miracolo e gentile


Tradução de José V. Pina Martins:

Nos olhos traz a minha dama Amor,
Assim o que ela olha se enobrece;
Quando ela passa, todo o olhar a segue
E a quem saúda o coração estremece.
Tal que, baixando o rosto, desfalece,
De todo o seu defeito então suspira;
Perante ela se vão soberba e ira.
Senhoras, ajudai-me a enaltecê-la.

Toda a doçura, humílimo pensar
No peito nasce a quem a ouvir falar;
Louvado seja aquele que a reconhece!
O que ao sorrir um pouco ela parece
Não se pode dizer nem recordar,
Pois é milagre novo e para honrar.

(continua)

sexta-feira, 28 de janeiro de 2005

Carlos Magno

Faz hoje 1191 anos que morreu Carlos Magno, Imperador dos Francos. Foi a 28 de Janeiro de 814. Antes de continuar a série de artigos intitulados "Humanae Litterae", aproveito esta data para, tendo eu mencionado parte II o chamado Renascimento Carolíngio, apresentar uma passagem da Vita Karoli Magni de Einhard (770-840), biógrafo de Carlos Magnos, representando, é claro que num registo elogioso, o esforço que um rei, da Alta Idade Média, fez para se elevar a um nível superior ao da sua época (minha tradução):

25

[Carlos Magno] tinha o dom de uma eloquência extraordinária e conseguia exprimir claramente fosse o que fosse. Não satisfeito com o domínio da língua materna, aprendeu também línguas estrangeiras, em particular o Latim de tal modo que o falava tão bem como a sua língua materna, no entanto era capaz de compreender melhor o Grego do que o falava. Na verdade, era tão eloquente que poderia passar por professor de eloquência.

Cultivou com extrema aplicação as artes liberais, tendo os seus professores em grande estima, cumulando-os com grandes honras. Na aprendizagem da gramática foi díscipulo do idoso diácono Pedro de Pisa, nas demais disciplinas teve como mestre Albino de Britânia, com o cognome de Alcuíno, um homem de origem saxónica, homem em todos os aspectos douto, com o qual dedicou muito tempo e esforço ao estudo da retórica, dialéctica, e principalmente astronomia. Aprendia aritmética e observou, ávido de saber, com uma atenção penetrante, o movimento dos astros.

Tentou escrever e costumava manter tabuinhas e placas na cama sob o travesseiro, para que nas horas livres pudesse habituar a mão a formar as letras; no entanto, teve pouco sucesso pois começou os seus esforços fora da idade apropriada, em idade avançada.