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segunda-feira, 24 de janeiro de 2005

Humanae Litterae - Parte II

No seguimento do artigo de Humanae Litterae – Parte I de 15/11/2004, apresento, por fim, a continuação que me propus fazer.

Quando se fala em Renascimento praticamente toda a gente lembra-se, sobretudo, dos séculos XV e XVI, da Itália, dos Humanistas, Leornardo da Vinci, por exemplo, e que, de modo geral, a palavra Renascimento se aplica aquele movimento cultural que sucedeu à Idade Média, cujo o fim é tradicionalmente fixado como o do ano da conquista de Constantinopla, em 1453, por Maomé II, embora o início deste período não seja igual para todos os países, pois, por exemplo, Petrarca, sem dúvida um humanista, é do século XIV enquanto que o Renascimento humanístico em Portugal é geralmente datado do final do séc. XV (1485) com a chegada de Cataldo Parísio Sículo.

Subjacente ao conceito de Renascimento dos séculos XV e XVI está a ideia de um renascimento cultural, subentendendo-se que depois da Antiguidade Clássica a Europa teria caído na barbárie durante a Idade Média, sendo o Renascimento a recuperação da cultura dos clássicos. Régine Pernoud na sua obra O mito da Idade Média (Europa-América) - no original Pour en finir avec le Moyen Age -, cita um Dictionnaire général des lettres de 1872 que sobre o Renascimento diz o seguinte “as artes e as letras que pareciam ter soçobrado no mesmo naufrágio que a sociedade romana, pareceram reflorir e, após dez séculos de trevas, brilhar com novo clarão”.

É claro que esta mesma noção foi fortemente alimentada pelos próprios humanistas do séc. XV e XVI, desejosos de marcar a diferença com o período imediatamente antecedente. Giorgio Vasari (1511-1574), pintor e historiador de arte, afirmou que entre o sécs. XV e XVI tinha sido criada "una nuova era di rinascita e rigenerazione dell'umanità".

Mas autores de séculos posteriores, sobretudo do séc. XVIII e XIX, também foram bastante insistentes sobre este ponto. Como diz José V. Pina Martins (in Dicionário de História Religiosa de Portugal, Círculo dos Leitores, p. 126):

Ligado intimamente ao conceito de Renascimento encontra-se o problema das relações do Renascimento com a fase histórica que o precede, a Idade Média. Embora os humanistas do séc. XV tivessem consciência de romper as «trevas» da idade anterior, foi a partir do século XVIII que a interpretação do Renascimento, na sua primeira fase preenchida pela cultura do humanismo, começou a definir-se como fractura em relação ao período cultural precedente. Para os que sustentaram o conceito de Renascimento como de ruptura inequívoca das normas da transcendência, com o propósito de apresentarem a Idade Média como uma época de obscurantismo intelectual e de tirania eclesiástica, para esses o Renascimento representa o triunfo sem reticências da omnipotência do homem, autónomo em sentido universal, criador do seu próprio mundo. As ideias do humanismo renascentista representariam, assim, o divórcio total das exigências terrenas perante a realidade transcendente, tida como superstição. (...) O Renascimento continua, através de uma evolução historicamente diferenciada, a marcha cultural da Idade Média.

Sabemos actualmente que esta ideia está errada, pois a Idade Média, não foi, no seu todo, a “idade das trevas” que normalmente lhe está associada e que leva, por exemplo, a ouvirmos o adjectivo “medieval” a propósito daquilo que se pensa ser retrógado ou bárbaro.

De facto, e parece que isso é muitas vezes esquecido, os eruditos da Idade Média conheciam grande parte dos clássicos, sobretudo os latinos e também alguns gregos. Já para não falar de casos como Venâncio Fortunato (530-600) ou Santo Isidoro de Sevilha (séc. c. 560-636), último Padre da Igreja Ocidental e o grande mestre da Idade Média da Alta Idade Média, que muitos poderão considerar como últimos legados da civilização romana, temos que notar que, na época contemporânea, se referiu a palavra “renascimento” a propósito de outros séculos durante a Idade Média.

Assim, temos o chamado Renascimento carolíngio, no tempo de Carlos Magno, que durante o seu reinado, rodeou-se em Aix-la-Chapelle de alguns dos maiores sábios da época, Pedro de Pisa, Alcuíno, Eginhard, mas, obviamente este movimento não é comparável com o movimento de 600 anos depois. Também a partir do séc. XII, em toda a Europa há um florescimento da actividade intelectual, lembremo-nos por exemplo de Dante Alighieri (1265-1321), que denota um grande conhecimento da Antiguidade Clássica.

Por outro lado, é preciso não esquecer que, se em muitos casos lemos actualmente os clássicos da Antiguidade, foi porque os seus escritos foram copiados e recopiados durante séculos, mesmo os de autores como Catulo, nos mosteiros medievais e mesmo durante a Alta Idade Média. O que distingue o Renascimento de todos os anteriores períodos da Idade Média é a sua imitação servil da Antiguidade Clássica. Durante a Idade Média a Antiguidade já era conhecida, mas servia apenas de suporte para alcançar horizontes mais vastos. No Renascimento, a Antiguidade era o modelo inultrapassável, o nec plus ultra.

Dito isto, não devemos reduzir o Renascimento ao Humanismo, mas devemos reconhecer que, numa primeira fase, foi a vertente humanística que moldou teoricamente o Renascimento. Mas quanto a este problema, o da relação entre Humanismo e Renascimento, espero voltar mais tarde.

Mas se o Humanismo moldou o Renascimento, tê-lo-á feito em contraponto com a Idade Média? Há muitos que, na esteira do conceito de Renascimento como recuperação da cultura depois de mil anos de trevas, consideram que a uma Idade Média totalmente religiosa se opôs um Renascimento laico e imanentista (cf. Gioachino Paparelli in Feritas, Humanitas, Divinitas, p. 18).

Mas antes de avançarmos para este ponto e apresentarmos as razões pelas quais esta visão antagónica entre a religiosidade da Idade Média e o laicismo do Renascimento (Humanismo) não pode ser aceite, vamos ver qual a origem de Humanismo.

Será o tema do próximo artigo desta série. Prometo não demorar tanto tempo como aconteceu com esta parte II.

segunda-feira, 15 de novembro de 2004

Humanae Litterae - Parte I

Este artigo já era para ter sido publicado há muito tempo, na altura em que criei este blog, pois seria uma espécie de declaração de intenções e do projecto subjacente à sua criação.

Neste primeiro artigo dedicado às humanae litterae tecerei algumas considerações gerais que serão desenvolvidas em um ou mais artigos posteriores.

Depois de ter criado o Super Flumina, tive sempre a ideia de separar um pouco as águas e dedicar um outro blog, dedicado a temas que me interssam bastante, como a literatura, a linguística ou a tradução.

Mas porquê chamar-lhe ”Humanae Litterae”? Como aparte, devo dizer na verdade que não hesitei muito no momento de dar um título ao blog, pois “Humanae Litterae” veio-me logo à cabeça mas a explicação para isso não é lá muito simples.

Humanae Litterae remete-nos por uma época bem determinada da história da Humanidade, o Renascimento. Sobre este já muito se escreveu, mas muito ainda se há-de escrever e, de qualquer modo, há sempre novos aspectos a explorar. Não pretendo aqui, neste blog, fazer trabalhos de pesquisa sobre o assunto, mas antes dar conta de algumas das minhas opiniões sobre está época de que muita gente fala, mas nem sempre sabe do que está a falar.

Desde já digo que não partilho da visão, que aliás dá nome ao próprio movimento, de que o Renascimento representa uma recuperação de capacidades que, eventualmente, terão sido perdidas desde a Antiguidade, durante toda a Idade Média. A Idade Média não foi, e para isso basta analisar as suas realizações, uma “Idade das Trevas” pois, para além de não ter sido homogéneo – relembremo-nos que durou cerca de 1000 anos –, tendo ainda conservado muito do legado da Antiguidade.

Mas, se gosto bastante da Idade Média, o Renascimento exerce um fascínio especial, para além de eu estar bem mais habilitado em falar dele do que da Idade Média. Mais nenhuma época ficará excluída deste blog, embora eu pense que vai haver uma focalização especial não só sobre o Renascimento, mas também sobre o Maneirismo, o Barroco ou o Neoclassicismo. Haverá por isso uma preferência a temas que vão dos séculos XV a XVIII.

Bem, deixa-me voltar à pergunta inicial: “Humanae Litterae porquê?” Para isso vou ter que fazer uma pequena digressão pelo Renascimento para depois chegar as humanae litterae propriamente ditas, verificando ainda qual a sua relação com as sacrae litterae, relação essa que, ao contrário do que muitos pensam e dizem sobre o Renascimento ou o Humanismo, não era de oposição mas sim de uma conexão e integração recíproca como adiante se verá, passando ainda pelo conceito de Homem veículado pelos humanistas, esse sim, um pouco diferente do conceito da Antiguidade Clássica que os humanistas tinham tomado como ideal praticamente inultrapassável.

É claro que esta diferença no conceito de homem dos humanistas em relação aos escritores da Antiguidade Clássica provém do advento do Cristianismo. A dignitatis hominis, para os humanistas era tomada como um facto cristão, não hesitando em comparar o homem com o anjo, resolvendo-se este conflito, para os humanistas, sempre em favor do primeiro.

Mas estes são alguns dos pontos que tentarei desenvolver no(s) artigo(s) posterior(es).