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sábado, 1 de janeiro de 2011

Bom Ano Novo

Coimbra, 1 de Janeiro de 1980 - Um alívio e um voto. É o que querem dizer estes foguetes e esta algazarra que festejam a partida do ano velho e saúdam a entrada do novo. O espírito de conservação é teimoso. Quantas mais desilusões a vida lhe dá, mais se ilude. Existir não é fácil. É preciso perder diariamente a memória das más horas e renovar diariamente a esperança das boas.
Miguel Torga, Diário XIII, in Diário (Volumes XIII a XVI), Círculo de Leitores, 2001, p. 1302.

domingo, 23 de novembro de 2008

D. Francisco Manuel de Melo

Faz hoje 400 anos que nasceu D. Francisco Manuel de Melo. Como lembrança deste facto, deixo aqui um dos seu poemas.

Ao Arcanjo são Rafael, pedindo-lhe
dirija sua molesta navegação

Piloto Celestial, Norte divino
Primeiro Tifis, Palinuro belo,
Guiador de Tobias a Gabelo,
Igual luz que do Velho, do Minino

Este madeiro que sem luz, sem tino,
Corta do mundo tanto paralelo,
Que presago se mostra em seu desvelo,
Mais do naufrágio que do porto dino!

Socorrei e guiai, entre as porfias
Dos erros e das sombras que ignorante
O desviam do porto verdadeiro!

Qual como fostes a ambos os Tobias,
Do Pai mèzinha e médico elegante,
Do Filho guia e doce companheiro.

(D. Francisco Manuel de Melo, Poesias Escolhidas, Prefácio, selecção, notas, tábua de concordância e glossário poe José V. de Pina Martins, Editorial Verbo)

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Padre António Vieira

O alto funcionário ultramarino segundo o Padre António Vieira:
Aparece uma nuvem no meio daquela Baía, lança uma manga ao mar, vai sorvendo por oculto segredo da natureza grande quantidade de água; e depois que está bem cheia, depois que está bem carregada, dá-lhe o vento, e vai chover daqui a trinta, daqui a cinquenta léguas.

Pois, nuvem ingrata, nuvem injusta: se na Baía tomaste essa água, se na Baía te encheste, porque não choves também na Baía? Se a tiraste de nós, porque a não despendes connosco? Se a roubaste a nossos mares, porque a não restituis a nossos campos? Tais como isto são muitas vezes os ministros que vêm ao Brasil - e é fortuna geral das partes ultramarinas. Partem de Portugal estas nuvens, passam as calmas da Linha, onde se diz que também refervem as consciências, e em chegando, verbi gratia, a esta Baía, não fazem mais que chupar, adquirir, ajuntar, encher-se (por meios ocultos, mas sabidos), e ao cabo de três ou quatro anos, em vez de fertilizarem a nossa terra com a água que era nossa, abrem as asas ao vento, e vão chover a Lisboa, esperdiçar a Madrid.
Padre António Vieira, Sermão da Visitação de N. Senhora, pregado no Hospital da Misercórdia da Baía

quarta-feira, 1 de março de 2006

Vergílio Ferreira

Faz hoje dez anos que morreu Vergílio Ferreira (obrigado ao Francisco por se ter lembrado disso). Para mim, e é apenas a minha opinião, Vergílio Ferreira escreveu um dos melhores romances portugueses dos últimos 50 anos: Para Sempre.

Só não digo que é o melhor porque, muito naturalmente, não li toda, nem sequer uma parte substancial, da ficção portuguesa desse período de tempo - embora tenha lido bastante, há muito coisa que ficou por ler (e nos últimos tempos tenho lido pouca ficção em prosa, virei-me mais para a linguística e a poesia).

«Pela clareira da porta, vejo-o, o senhor Paixão está sozinho à mesa, tem os olhos baixos. Está concentrado aplicado, é um trabalho minucioso, aplicado ao manejo do talher, nem nos olha. Estamos os dois alinhados e eu tenho a tigela ofertada nas duas mãos. Então o senhor Paixão ergeu os olhos
- Está aqui o Paulinho, Carlos, trouxe-te uma marmelada
ergeu os olhos para nós. Eram uns olhos congestionados de uma paixão que o convulsionava por dentro, tinha uma cabeleira fulva alteada na fronte e aos anéis. A senhora Guilhermina, um sorriso grande abrindo lentamente pelas gengivas todas e depois disse em voz abafada
- O senhor Carlos Paixão
e eu estava ali com a marmelada. Os três fitados uns nos outros, o senhor Paixão sério, os olhos ardentes de uma devoração interior. Depois estendeu as duas mãos para mim, tomou-me a tigela, colocou-a na mesa, um pouco de lado, suspendendo-a brevemente em quatro dedos litúrgicos. Por uma ponte ergeu devagar o papel vegetal, olhava intenso, o olho em fogo, a senhora Guilhermina mudou-lhe o prato subtilmente. Ele então cortou uma pequena película de marmelada, estendeu-a sintética no prato. Ficou assim a olhá-la algum tempo, nós agurdávamos. Sobretudo a senhora Guilhermina - que iria o filho dizer? E ele disse
- Um pouco escura
e ficámos à espera de mais. Estávamos todos em silêncio, o senhor Paixão concentrado como se fosse comungar, murmurou ainda
- Em fins de Setembro
deve-se colher o marmelo em fins de Setembro. Deve-se colher quase maduro. Não ficar muito tempo ao lume. Não se expor ao ar.
Depois retirou uma partícula do prato, levou-a à boca devagar. A boca remoía a partícula, tentava extrair-lhe a essência oculta do sabor. E por fim engoliu-a já sem vida, como quem enterra um morto.
- Pouco saborosa. Pouca acidez. Não se deve cozer o marmelo em água, mas em vapor. Mãe, o café.»
Vergílio Ferreira, Para Sempre, 10.ª ed., Bertrand Editora, pp. 58-59

quarta-feira, 30 de novembro de 2005

O supra-Camões

Faz exactamente hoje 70 anos que morreu Fernando Pessoa numa cama do Hospital de S. Luís dos Franceses em Lisboa.

Nascido a 13 de Junho de 1888, também em Lisboa, Pessoa foi, para mim, o maior poeta português do século XX, embora possa haver quem discorde desta opinião, por exemplo, ouvi uma vez Álvaro Cunhal, em entrevista, a dizer que nunca tinha gostado muito da poesia de Pessoa (o que também acho natural, basta ver a concepção de arte de Cunhal e as suas discusões sobre isso com José Régio na Seara Nova em 1939). Não posso dizer que foi o maior poeta mundial do séc. XX porque, pura e simplesmente, me faltam conhecimentos para isso. Mas, no que respeita a Portugal não tenho dúvidas, apesar dos muitos e excelentes poetas do séc. XX e, do resto do mundo, também, daqueles que conheço, poucos se podem comparar a ele. E, hélas, Pessoa também não recebeu o Prémio Nobel (mas aí está em boa companhia).

Fernando Pessoa, apesar de pouco ter publicado em vida (mais propriamente, de pouco ter publicado em livro), tinha uma confiança absoluta no seu valor e na validade da sua obra, que mereceria até o sacrifício da sua vida sentimental.

Em 1912, ele escreveu uma série de artigos, na revista "A Águia", órgão do movimento Renascença Portuguesa, sobre a nova poesia portuguesa que estaria, segundo ele, então a despontar. Depois de comparar, segundo ele, os períodos dourados das literaturas inglesa (o isabelino até à queda de Cromwell) e francesa (da Revolução francesa até à Comuna de Paris), Pessoa chega à conclusão que a poesia portuguesa da época está mais ao menos na mesma situação que permitiria um período dourado:
A analogia é absoluta. Temos, primeiro, a nota principal da completa nacionalidade e novidade do movimento. Temos, depois, o caso de se tratar de uma corrente literária contendo poetas de indiscutível valor. E note-se - para o caso de se argumentar que nenhum Shakespeare nem Vítor Hugo apareceu ainda na corrente literária portuguesa - que esta corrente vai ainda no princípio do seu princípio, gradualmente, porém, tornando-se mais firme, mais nítida, mais complexa. E isto leva a crer que deve estar para muito breve o inevitável aparecimento do poeta ou poetas supremos, desta corrente, e da nossa terra, porque fatalmente o Grande Poeta, que este movimento gerará, deslocará para segundo plano a figura, até agora primacial, de Camões. Quem sabe se não estará para um futuro muito próximo a ruidosa confirmação deste deduzidíssimo asserto? [...]
Pode objectar-se, além de muita coisa desdenhável num artigo que tem de não ser longo, que o actual momento político não parece de ordem a gerar génios poéticos supremos, de reles e mesquinho que é. Mas é precisamente por isso que mais concluível se nos afigura o próximo aparecer de um supra-Camões na nossa terra. [...] Porque a corrente literária, como vimos, precede sempre a corrente social nas épocas sublimes de uma nação. Que admira que não vejamos sinal de renascença na vida pública, se a analogia nos manda que vejamos apenas uma, duas ou três gerações depois do auge da corrente literária?
É óbvio que Pessoa não afirma que seria ele o "supra-Camões", mas, a posteriori, quase que podemos dizer que estava a desenhar um fato à sua medida. Interessante é também a parte final deste conjunto de artigos:
Tirem-se, rapidamente, as tónicas conclusões finais. São três. A primeira é que para Portugal se prepara um ressurgimento assombroso, um período de criação literária e social como poucos o mundo tem tido. Durante o nosso raciocínio deve o leitor ter reparado que a analogia do nosso período é mais com o grande período inglês do que com o francês. Tudo indica, portanto, que o nosso será, como aquele, maximamente criador. Paralelamente se conclui o breve aparecimento na nossa terra do tal supra-Camões. Supra-Camões? A frase é humilde e acanhada. A analogia impõe mais- Diga-se «de um Shakespeare» e dê-se por testemunha o raciocínio, já que não é citável o futuro. A segunda conclusão é que, tendo o movimento literário português nascido e acompanhado o movimento republicano, é dentro do republicanismo, e pelo republicanismo, que está, e será, o glorioso futuro deduzido. São duas faces do mesmo fenómeno criador. Fixemos isto: ser monárquico é, hoje, em Portugal, ser traidor à alma nacional e ao futuro da Pátria Portuguesa. A terceira conclusão é que o republicanismo que fará a glória da nossa terra e por quem novos elementos civilizacionais serão criados, não é o actual, desnacionalizado, idiota e corrupto, do tripartido republicano. De modo que é bom fixar isto, também: que ser monárquico é ser traidor à alma nacional, ser correligionário do Sr. Afonso Costa, do Sr. Brito Camacho , ou do Sr. António José de Almeida, assim como de vária horrorosa subgente sindicalista, socialista e outras coisas, representa paralela e equivalente traição. O espírito de tudo isso é absolutamente contrário do espírito da nova corrente literária. Tudo ali é improtado do estrangeiro, tudo é sem elevação nem grandeza, popular com o que há de mais Mouraria na popularidade. Para nada de morte lhes faltar, nem antitradicionais são: herdaram cuidadosamente os métodos de despotismo, de corrupção e de mentira que a monarquia tão como seus amou. [...]
Fernando Pessoa nunca gostou particularmente da 1.ª República nem dos seus principais protagonistas. O futuro glorioso de Portugal prognosticado por Pessoa ainda não aconteceu, mas o brilho da obra que produziu, esse ninguém o pode tirar.

Post scriptum: As citações do artigo de Pessoa publicado in A Águia, foram retiradas do livro de António Quadros, Textos de Intervenção Social e Cultural - A Ficção dos heterónimos, Europa-América.

sexta-feira, 18 de março de 2005

Em defesa do "Velho do Restelo"

Não deve haver na literatura portuguesa personagem mais difamada. Por tudo e por nada chama-se a alguém "Velho do Restelo": "és um velho do Restelo", "só os velhos do Restelo é que pensam assim", "os velhos do Restelo do costume" e por aí fora....

Ou seja, o Velho do Restelo surge como metáfora, comparação, símbolo, epíteto (eu sei lá..., escolham mais algumas figuras de estilo) daqueles que, supostamente, são "botas-de-elástico", "retrógados", "inimigos do progressos", etc..., etc..., etc...

No entanto, esta reputação é de todo imerecida e - não tendo eu feito qualquer investigação sobre o assunto e, por isso, não sabendo da origem da expressão com o sentido que ela tem actualmente -, francamente, só pode ser utilizada por quem não leu com atenção o chamado "Episódio do Velho do Restelo", Canto IV, 94-104, dos Lusíadas, ou por quem deu conta de idênticas dúvidas sobre a chamada "Empresa da Índias" como, por exemplo, Gil Vicente ou Sá de Miranda.

Qual a justificação desta minha afirmação? O próprio texto dos Lusíadas, e não entrando aqui em considerando quanto a função e aos antecedentes deste tipo de episódio na história da literatura desde a Antiguidade, em que o Velho do Restelo é apresentado como sendo alguém muito digno : "Mas um velho de aspeito venerando," (Est. 94, v. 1) e "C'um saber só de experiências feito,/Tais palavras tirou do experto peito:" (Est. 94, vv. 7-8).

A seguir, o discurso do Velho do Restelo é uma reflexão filosófica sobre a empresa das Índias e que ele condena não por qualquer alergia ao progresso, mas por a considerar apenas comandade pela cobiça e que o custo de tal operação será muito mais elevado do que as suas vantagens, devido às consequências nefastas que terá na sociedade portuguesa.

Também rejeita o fundamento de "dilatar a Fé e o Império", pois se queriam combater o Infiel (os muçulmanos) tinham o Norte de África para o fazer, onde poderiam obter a fama, glória e riquezas que buscavam no Oriente longínquo.

O Velho do Restelo mais do que representar uma facção retrógada, alérgica ao progresso, representa uma parte da sociedade portuguesa, da alta nobreza, que dava, por razões ideológicas (e religiosas), uma importância maior ao nossos domínios no Norte de África, pois era aí que os filhos da alta nobreza normalmente terçavam pela primeira vez as armas.

Por outro lado, a empresa das Índias foi muito mais uma acção conduzida pela pequena e média nobreza que, nunca podendo alcandorar-se aos altos cargos no Norte de África, viu nesta empresa um meio de poder singrar na vida.

Mas, como eu disse mais acima, com o "Velho do Restelo" Camões deu voz nos Lusíadas (e lembremo-nos que os Lusíadas foram compostos dezenas de anos depois da Viagem do Gama), a esta facção contemporânea da viagem que estava contra a sua relização. Mas, já antes de Camões, Gil Vicente e Sá de Miranda tinham expressado as suas dúvidas sobre a nossa presença no Oriente.

No caso de Gil Vicente, basta reler o "Auto da Índia", de 1509 note-se, Gil Vicente critica o impacto das expedições ao Oriente na sociedade, da infidelidade feminica provocada pela ausência dos maridos, da cobiça do portugueses na Índia, sobretudo dos capitães, e da ilusão que criava nos soldados que regressavam de mão a abanar(vv.493-497):
Lá vos digo que ha fadigas,
Tantas mortes, tantas brigas,
E p'rigos descompassados,
Que assi vimos destroçados.
Pelados como formigas."
A mitologia oficial dos heróis dos Descobrimentos é logo aqui posta a nu.

Também Sá de Miranda (1481-1558), exprimiu semelhantes dúvidas sobre as vantagens de manter as possessões no Oriente, na famosa Carta a "António Pereira, senhor do Basto, quando se partiu para a Côrte co a casa tôda"(Edição Sá da Costa):
Não me temo de Castela,
donde inda guerra não soa;
mas temo-me de Lisboa,
que, ao cheiro desta canela,
o Reino nos despovoa.
Sá de Miranda, humanista, homem conhecedor da Europa e do que se passava no seu tempo, sentia o Oriente como causa de decadência do Reino.

Quando Camões escreveu os seus Lusíadas, havia já uma grande contestação ao modo como D. João III tinha dado prioridade à Índia, em comparação com o abandono de algumas das possessões africanas. lembremo-nos que, em parte, as posições do Velho do Restelo seriam as posições do próprio Camões, pois este insta D. Sebastião, no início e no fim dos Lusíadas, a fazer guerra em África contra os mouros (um resquício ainda do espírito de Cruzada e dos ideais de Cavalaria), aliás também partilhados, por exemplo, por Gil Vicente, no final do Auto da Barca do Inferno (os Cavaleiros mortos em África que vão directos para a Barca da Glória).

Em conclusão, o Velho do Restelo não representa uma opinião reaccionária, contra o progresso, mas apenas, uma opinião, bastante ancorada na sociedade portuguesa quinhentista, que duvidava, por diversos motivos, das vantagens da aventura oriental, das conquistas no Índico, chegando-lhe a atribuir as causas da decadência de Portugal. No eloquente discurso (cheio de processos retóricos que remontam a Homero) do Velho do Restelo, misturam-se as ideias de um Humanismo antibelicista, abrindo excepção a este antibelicismo à guerra com os Mouros.

Por isso não chamem Velho do Restelo àqueles que se opõe ao progresso ou que são, pura e simplesmente, refractários ao progresso, pois do que se trata aqui é de uma diferente avaliação do deve-haver da aventura imperial na Índia.

Post-scriptum. Esta entrada foi sugerida pela contínua audição, em diferentes circunstâncias, da expressão "Velho do Restelo" no sentido que eu contesto aqui.

Post-scriptum 2. O que eu digo aqui nem sequer prima pela originalidade, pois os programas do 10º ano (não estou a falar do actual), já pediam aos alunos para relacionar o Episódio do Velho do Restelo com o Auto da Índia. Todavia, o problema é que a expressão cristalizou o seu sentido.

quinta-feira, 17 de março de 2005

Camilo de Castelo Branco (1825-1890)

Ontem, por motivos de trabalho, não me foi possível assinalar os 180 anos do nascimento de Camilo de Castelo Branco (16-03-1825), uma das figuras de proa da segund ageração romântica. Um dos nossos maior romancistas, ou melhor novelista (e também contista), conhecido pela sua prosa, também experimentou outros géneros literários, como a poesia ou o teatro, para além da crítica e história literária, o jornalismo, por exemplo.

Não quero aqui, fazer qualquer estudo sobre a obra de Camilo, apenas assinalar, a data do seu nascimento através de um exemplo poético da sua obra, porque penso que esta faceta de Camilo é largamenbte desconhecida da maior parte das pessoas. É certo que não se pode comparar com a sua fcate de prosador, mas mesmo assim tem o seu interesse, mantendo, por exemplo, a ironia que o caracterizou.

Os meus amigos

Amigos cento e dez e talvez mais
Eu já vos contei! Vaidades que eu sentia!
Pensei que sobre a terra não havia
Mais ditoso mortal entre os mortais.

Amigos cento e dez, tão serviçais,
Tão zelosos das leis da cortesia,
Que eu já farto de os ver, me escapulia,
Às suas curvaturas vertebrais.

Um dia adoeci profundamente,
Ceguei. Dos cento e dez, houve um somente
Que não desfez os laços quase rotos.

Que vamos nós (diziam) lá fazer?
se ele está cego, não nos pode ver...
Que cento e nove impávidos marotos!



sexta-feira, 25 de fevereiro de 2005

Os 150 anos de Cesário Verde

Quando em Dezembro do ano passado se passaram os 150 anos da morte de Almeida Garrett houve quem criticasse (e com justiça) a Câmara Municipal do Porto, e não só, por praticamente ignorar essa data. Ora, hoje passam 150 anos sobre o nascimento de um dos maiores poetas portugueses de todos os tempos: Cesário Verde. Sinceramente não sei se alguém na Câmara Municipal de Lisboa se lembrou desta data, mas se o não fez deveria fazê-lo, pois poeta foi um dos grandes poetas da cidade Lisboa.
José Joaquim Cesário Verde nasceu em Lisboa a 25 de Fevereiro de 1855, no dia consagrado pela Igreja Católica a São Cesário, filho de um casal abastado de comerciantes, com loja de ferragens aberta ao público na Rua dos Fanqueiros. Para além disso, o pai de Cesário Verde herdou de um tio uma quinta em Linda-a-Pastora. Naturalmente, toda a educação do futuro poeta foi orientada segundo os projectos familiares, tendo aos 17 anos iniciado a sua carreira profissional na loja do pai.
E quanto às letras? Como terá surgido a vocação? Sabemos apenas que em 1873 se matriculou como aluno voluntário no Curso Superior de Letras. O curso, se é que o seguiu, pelo menos não fez os exames, não teve qualquer influência na sua vida profissional nem na sua obra. Todavia, foi na frequência deste curso que encontrou Silva Pinto, que ficou seu amigo para toda a vida. A sua produção poética estendeu-se de 1873 até à sua morte em 1886, isto é, 13 breve anos. Mas foi quanto bastou para ser um dos maiores poetas portugueses dos últimos 150 anos.
Cesário Verde não publicou qualquer livro em vida. Os seus primeiros poemas publicados (3) foram-no no Diário de Notícias, por mão de Eduardo Coelho, director do jornal, que tinha sido antigo caixeiro do pai de Cesário. Por sua vez, Silva Pinto publica mais alguns poemas no portuense Diário da Tarde.
Em 1873 ou 74, Cesário teria projectado a publicação de um livro intitulado Cânticos do Realismo ou Ecos do Realismo. Todavia, este projecto não foi para a frente. É que, ao contrário do que acontece hoje, a sua obra sofreu de indiferença geral ou mesmo de incompreensão. Os seus contemporâneos não tinham uma opinião muito elogiosa sobre ela.
Teófilo Braga, referindo-se ao poema Esplêndida, disse “que um poeta amante e moderno devia ser trabalhador e não devia rebaixar-se assim”. E porquê? Este poema, publicado em 22 de Março de 1874, termina assim:
E daria, contente e voluntário,
A minha independência e o meu porvir,
Para ser, eu poeta solitário,
Para ser, ó princesa sem sorrir,
Teu pobre trintanário.
E aos almoços magníficos do Mata
Prefiriria ir, fardado, aí
Ostentando galões de velha prata,
E de costas voltadas para ti
Formosa aristocrata.
Nunca o positivista Teófilo poderia suportar tal. Todavia, neste poema, não se pode admitir uma leitura do sujeito poético em moldes românticos. Há que assumir o fingimento poético, este sujeito não é para ser lido como projecção do autor. Tal não foi, obviamente, compreendido por Teófilo, que estabelece uma identidade entre autor/sujeito poético. Ora, esta relação pode existir ou não, mas Teófilo pensava ainda em moldes românticos.
Mas também Ramalho Ortigão n’As Farpas o critica vivamente, aconselhando-o a tornar-se “menos verde e mais Cesário”. Fialho de Almeida também não o poupou. No entanto, Cesário reconciliar-se-ia mais tarde quer com Ramalho quer com Fialho.
De notar que o próprio Cesário Verde era republicano, positivista e agnóstico, e que frequentemente integra a questão social nos seus poemas. Mas a ideia que imperava na época do que a poesia deveria ser não se coadunava com a poesia de Cesário que, por exemplo, retratava o quotidiano da cidade, as pessoas, profissões ou lugares de uma forma que era considerada pouco poética. O mesmo poeta que escreveu Esplêndida, escreveu Deslumbramentos, publicado em Fevereiro de 1875 no Mosaico de Coimbra, que termina assim:
Mas cuidado, milady, não se afoite,
Que hão-de acabar os bárbaros reais;
E os povos humilhados, pela noite,
Para a vingança aguçam os punhais.
E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas,
Sob o cetim do Azul e as andorinhas,
Eu hei-de ver errar, alucinadas,
E arrastando farrapos – as rainhas!
Este passo parece um reflexo da ideia anteriana da poesia como Voz da Revolução e da retoma da função social da poesia da 1.ª geração romântica que Antero fez e que se tinha perdido, na sua maior parte, com o Ultra-romantismo.
De qualquer modo, a indiferença e a incompreensão com que a sua obra foi acolhida, mesmo por aqueles que politicamente lhe estavam mais próximos, provocaram-lhe outras decepções. Por exemplo, Teófilo Braga não o incluiu numa antologia de poesia, Parnaso Português Moderno (1877), antologia essa que representaria, supostamente, as novas tendências da poesia. Aliás, mais tarde, na sua obra As modernas ideias na Literatura Portuguesa (1892), Teófilo volta a não referir Cesário Verde.
A sua poesia reflecte frequentemente esta decepção pela incompreensão da sua obra (Contrariedades):
A crítica segundo o método de Taine
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A imprensa
Vale um desdém solene.
(…)
Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
Me negam as colunas.
Todavia, também não admira que a obra de Cesário não tivesse tido uma boa recepção: não publicou livros em vida, morreu jovem, a sua obra foge a qualquer classificação muito rígida, não optou exclusivamente por qualquer escola. Deste modo a sua poesia é caracterizada como realista, mas também como simbolista, parnasiana, pré-modernista, romântica e até surrealista (avant la lettre, é claro).
Por outro lado, temos que ver a situação particular do poeta. Cesário era um empregado do comércio que se dedicava à poesia. Por esse motivo, não pertencia aos círculos literários da época, o que também não facilitou a sua recepção. Depois da sua morte, em 19 de Julho de 1886, com apenas 31 anos, o seu amigo Silva Pinto, a expensas suas, fez publicar cerca de 50% das suas poesias, numa edição não comercial de 200 exemplares, segundo um critério editorial ainda hoje discutido (terá sido do poeta ou exclusivamente de Silva Pinto).
A poesia de Cesário é redescoberta no séc. XX e influencia o modernismo bem como grande parte da poesia do século. Fernando Pessoa, na sua poesia, através de Alberto Caeiro e Álvaro de Campos considera-o como um dos seus mestres. Mas Pessoa em textos teóricos também o considera como mestre e precursor. Assim num texto sem data (publicado em Colóquio-Letras, n.º 8, Julho de 1972 e transcrito António Quadros, Páginas sobre Literatura e Estética, Europa-América), Pessoa escreve:
Houve em Portugal, no século dezanove, três poetas, e três somente, a quem legitimamente compete a designação de mestres. São eles, por ordem de idades, Antero de Quental, Cesário Verde e Camilo Pessanha. Com a excepção de Antero, todavia dubitativamente aceite e extremamente combatido, coube a todos os três a sorte normal dos mestres – a incompreensão em vida, nos mesmos (como em Byron, derivando de Wordsworth e combatendo-o) sobre quem exerceram influência.
Num outro texto, datado de 11-11-1934, publicado na mesma revista e transcrito na mesmo livro, Pessoa volta a escrever:
O segundo [Cesário Verde] ensinou a observar em verso; descobriu-nos a verdade de que o ser cego, ainda que Homero em lenda o fosse e Milton em verdade se tornasse, não é qualidade necessária a quem faz poemas.
Num texto presumivelmente datado de 1916 e transcrito por António Quadros (op. cit.), Pessoa considera Cesário como um precursor do Sensacionismo:
[O Sensacionismo] Tem só 3 poetas e tem um precursor inconsciente. Esboçou-o levemente, sem querer, Cesário Verde.
A poesia de Cesário tem presentes alguns dos objectivos da poética de Antero, como a ligação do lirismo à ideia de justiça. No entanto, esta ligação faz-se de um modo diferente, pois Cesário está contaminado pela técnica analítica do romance naturalista. Cesário é essencialmente o poeta da observação, não das questões gerais.

Por outro lado, Cesário é anti-sentimentalista pois sofre uma forte influência do parnasianismo (por exemplo, procura o tom neutro, não exaltado ou veemente dos românticos, próprio dessa poética), mas não é um parnasiano, pois ao lado descritivista ele alia ao formalismo à intervenção social e as condições sociais (os parnasianos defendiam o indiferentismo perante o social e a Arte pela Arte).

Muitos outros temas das poesia de Cesário poderiam ser abordadas: a poetização do real, o tempo e a morte, a imagética feminina, o binómio cidade/campo, mas não foi o meu objectivo neste artigo, pois não pretendi com esta breve exposição explicar as características principais da poesia de Cesário Verde, nem sequer em ser original, mas apenas evocar o poeta incompreendido pelos seus contemporâneos e a quem a posteridade lhe concedeu, muito justamente, uma fama muito superior àquela que teve em vida.
De muito dos poetas mais lidos naqueles tempos, como por exemplo, Tomás Ribeiro ou Pinheiro Chagas,  se lê alguma coisa regularmente hoje em dia? De personagens importantes no mundo da literatura da época como Teófilo Braga, o que resta hoje?
Cesário, na minha opinião, juntamente com Camilo Pessanha e Fernando Pessoa forma a  trindade maior dos poetas portugueses dos últimos 150 anos. Embora Portugal tenha tido outros excelentes poetas durante este tempo, todos esse não jogam (e aí vai uma metáfora futebolística) na mesma divisão.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2004

Almeida Garrett

Como não podia deixar de ser, nunca poderia deixar passar em claro a passagem do 150º aniversário da morte de Almeida Garrett, pois para isso já basta as autoridades oficiais, do governo à Câmara Municipal do Porto, deixarem cair quase no esquecimento absoluto esta data.

Por isso, e antes de continuar neste blog a parte II do artigo Humanae litterae, decidi introduzir uma pequena homenagem a Almeida Garrett. E, de entre as várias hipóteses que considerei, pareceu-me ajustado dar a conhecer um texto enterrado nos volumes do jornal O Panorama de 1839 que dava a conhecer a existência de edição das obras que Garret tinha até escrito.

Este texto, não assinado, é bastante interessante por vários motivos. Em primeiro lugar, porque, apesar de ser escrito numa época em que Garret ainda não tinha escrito algumas das suas obras-primas, por exemplo, e só para nomear algumas, Folhas caídas (1853), Frei Luís de Sousa (1844) e Viagens na minha terra (1846), Garret já tinha conquistado um lugar ao sol na literatura portuguesa. Em segundo lugar, este texto explicita de um modo absolutamente claro algumas das características principais do romantismo (diríamos do 1.º romantismo) contrapondo-as às características da literatura clássica.

Numa época em que o romantismo tinha irrompido há pouco na literatura portuguesas, embora D. Branca e Camões sejam de 1826 e 1825, respectivamente, tem que se esperar por meados da década de 30 para se poder começar a falar de literatura romântica em Portugal sem se tratar de um caso isolado (pois entretanto, Herculano publicará a Voz do Profeta e a Harpa do Crente e Castilho, um caso muito especial de romantismo, publicara Os Ciúmes do Bardo e a Noite do Castelo), é interessante ver-se uma argumentação já bastante consolidada, sendo certo que esta argumentação já vinha sendo praticada na Alemanha há mais de 30 anos e em França (apesar de um romantismo tardio) já Hugo tinha escrito o prefácio de Cromwell (1827) e acontecido as guerras de Hernani (1830).

Mas, passemos ao texto em si, publicado no O Panorama, n.º 112, de 22 de Junho de 1839, Vol. III, p. 199-200 (mantive a ortografia da época por achar que a compreensão não é afectada por ela).

Obras de J. B. d’Almeida Garrett – 18 volumes : Prospecto.

Veio-nos á mão um prospecto das obras do Sr. Garret, que se vão reimprimir collectivamente, em um edição de volumes em 12.º, sendo esse prospecto a amostra do typo, e papel da reimpressão, e offerecendo bem assim a lista das obras que entram na collecção, das quaes boa parte é inedita.

Nas obras do Sr. Garrett, como poeta, há, além do merito extraordinario que as distingue, uma circumstancia, que lhes dá o primeiro logar na litteratura portugueza do seculo 19.º, e vem a ser que ellas começam o periodo da transição entre a velha litteratura da eschola, chamada classica, e a da eschola, que denominam romantica, e a que nós chamaos ideal, nacional, e verdadeira. Antes de D. Branca a nossa poesia, moldada pelo typo da poesia franceza e italiana do seculo passado, não era senão um reflexo pallido da luz serena da arte grega, reverberado frouxamente no poetar dos romanos, e ainda mais descorado no da epocha de Luiz 14.º. A influencia da nossa Arcadia, se destruiu os desvarios gongoristicos de seculo 17.º, matou também a nacionalidade e a vida intima da poesia : a arte converteu-se em sciencia, e erudição : os poetas fizeram-se, não nasceram, e por cada poeta inspirado, houve educados pela ferula das poeticas e rhetoricas. Protegidas por metrificação severa, por peloticas de lingua, por tropos collocados em bateria, por estylo pomposo e estudado, por harmonias vaãs e sem pensamento, quantas semsaborias e trivialidades estão aninhadas por esses muitos volumes de versos de meio seculo ! – O padre Macedo, tão acusado e malquisto, por invectivar contra Camões, e escrever o Oriente para contrastar os Lusíadas, não fez mais que resumir e exprimir claramente por theoria e practica o espirito da Arcadia, que a propria Arcadia ou nunca em si entedera, ou nunca ousára declarar. A fórma da arte era o fim da Arcadia e era com as fórmas que Macedo guerreava Camões e era para as fórmas que construia a montanha de gêlo, a que poz nome Oriente. Foi elle quem definiu a chamada restauração da poesia feita pelos poetas do marquez de Pombal ; e os discipulos e admiradores dos arcades, que tão assanhadamente pelejavam com Macedo, nem o entendiam, nem se entendiam ; e por isso na lucta ficaram sempre, e sem excepção, vencidos.

Quando essas luctas cessaram, e Macedo atirou á balança politica a sua penna violenta e mordaz, o cyclo pseudo-poetico da eschola de Diniz estava completo : devia morrer e morreu ; porque a sua missão acabára. A influencia da philosophia litteraria alemaã tinha-se espalhado na Europa, e uma poesia livre e robusta fazia curvar diante do pensamento a fórma, diante do ideal o material, diante do nacional o estranho, diante do poeta a poetica. Foi nesta epocha que o Sr. Garrett, atirado pelas revoluções para as praias do desterro, no vigor da mocidade e do talento, viu de longe passar o saimento das eglogas, dos sonetos, dos dithyrambos, das elegias, e das odes pindaricas, daquellas bemaventuradas odes, sobre cuja tumba, choravam as liras com as bujarronas esvoaçando soltas por mares de louvores, seguidas por um clarão sonoro de buscapés, meio desasado, voando com os pés pelo chão, cósta arriba do Pindo, cousa mui piedosa d’ouvir e ver, e que fazia chorar as pedras. Viu isto de longe o senhor Garrett [que certas cousas só de longe se veem bem, como com tanta pilheria o disse um poeta da eschola arcadiana

Se de perto o não vês, põe-te distante.)

e conheceu que a elle, que nascera poeta, que estava fóra da influencia escholastica, e que via surgir de roda de si a poesia da consciencia e da inspiração, cumpria tomar na litteratura patria, o logar que Scott, Byron, e Crabbe, Goethe, e Schiller e Burger, Lamartine e Soumet, tinham nas litteraturas, ingleza, alemaã, e franceza. D. Branca, e o Camões foram, por certo, o resultado desta convicção. D. Branca é o ideal da edade média portugueza convertido em typo poetico ; Camões o ideal do poeta christão, valente, e generoso, revelado no quadro da longa agonia dos ultimos annos do rei dos poetas modernos. Estes dois poemas, lançados sem discussão preliminar na arena litteraria de Portugal, fizeram estremecer de horror os homens das regras, os homens das poeticas e rhetoricas. E, com effeito, esta apparição não podia ser comprehendida ; porque a transição era repentina, e porque ninguem percebera que as tradições da Arcadia deviam parecer logo que fossem definidas, que ellas o tinham sido, e que as suas rigorosas consequencias se haviam completamente deduzido. Os criticos agarraram-se á linguagem, ao estylo, á metrificação emfim, áquilo de que sabiam – ás fórmas : mas o espirito e o resultado destes dois poemas ficou sem ser percebido, nem calculado, e hoje é que elles se começam verdadeiramente a sentir.

Como todos os escriptos do Sr. Garrett tragam o sello da sua missão regeneradora ; como a influencia delles na litteratura actual se tenha desenvolvido não o podemos examinar aqui ; que a estreiteza deste jornal no-lo veda, e um tal exame equivalera á historia litteraria dos ultimos quinze annos. Tambem de deffeitos, não podemos fallar, nem quizeramos ; que até nisto foi completa a revolução litteraria : os antigos criticos alimentavam-se de podridão, e por isso o seu maior empenho era buscar erros e vicios nas producções de ingenho : hoje a critica, mais generosa, indaga formosuras e meritos para os revelar ao mundo, onde a arte só deve servir para consolar o homem de tantas amarguras que sobre lle entornou a mão mysteriosa da providencia.

Entendemos que a edição das obras do sr. Garrett é um bom serviço que os editores fazem ás letras portuguezas, e que todos os que as amam os devem ajudar em tão honrado proposito. Repeti-lo-hemos ; além do seu merito absoluto, ellas teem o mais valioso ainda de principiarem uma epocha de verdadeira regeneração litteraria.

Este artigo já vai longo, mas não gostaria de deixar de assinalar alguns factos interessantes que se podem dele relevar.

Em primeiro lugar, o reconhecimento do lugar de Garrett como escritor de ruptura com os canônes até predominantes na literatura portuguesa. A esta nova literatura, o autor do texto prefere-lhe chamar “ideal, nacional e verdadeira” em vez de romântica. Os adjectivos “nacional” e “verdadeira” estão muito na essência na concepção de literatura do Romantismo.

Mas, continuado, vemos que a anterior literatura, chamada “clássica” (embora já não o fosse totalmente, pois o neoclassicismo já tinha tido evoluído para o pré-romantismo, embora mantendo-se todo um arcadismo ainda preominante). A essa poesia anterior apenas se reconhece a virtude de ter acabado com o gongorismo (o barroco só foi reabilitado na 2.ª parte do séc. XX). Mas de resto é acusada de ser formal, de ser manietada por retóricas e poéticas normativas, ao contrário da nova poesia livre dessas restrições formais pois vinda de um poeta inspirado.

Esta é uma diferença fundamental entre a poesia neoclássica e o romantismo. A concepção do poeta clássico é extremamente diferente, como se poderá ler, por exemplo, pela leitura da Dissertação Terceira (de que espero voltar a falar de um modo mais completo no quadro da “imitação”) de Correia Garção lida a 7 de Novembro de 1757 na sessão da Arcádia, onde se defendiam a imitação (que não o plágio, são coisas bem diferentes). O poeta só pode ser bom se seguir o caminho dos “antigos poetas e oradores”. Mas seguir o caminho não é traduzir servilmente a Antiguidade.

Esta concepção de poesia, indicava que ninguém poderia chegar a poeta senão pelo estudo. Ora, o romantismo acreditava no génio individual – será preciso lembrar o poema L’albatros de Naudelaire? – pelo que tal noção de poesia só poderia ser recusada. Por isso fala em poetas que “se fizeram” (os clássicos) contra aqueles que “nasceram” poetas (naturalmente superiores).

Muito mais se poderia dizer deste texto, como por exemplo o porquê da valorização de D. Branca (idade média) ou de Camões (tema do poeta cristão) também típicos da literatura romântica da época, e não pretendendo fazer um texto académico, apenas tive o objectivo de homenagear Almeida Garrett divulgando um texto de crítica coeva à obra que o escritor tinha produzido até então, mostrando a importância com que o consideravam já e que mantece depois (embora o tratamento que receba nos programas do ensino secundário seja extremamente redutor, fazendo com que seja detestado pela grande maioria dos alunos).