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segunda-feira, 1 de maio de 2006

Catulo - Parte II

A poesia de Catulo

Os poemas que de Catulo que conhecemos foram preservados em vários manuscritos com uma história tortuosa. A partir do sec. XIV, estes manuscritos começaram a ser copiados e estudados pelos humanistas. Neles se recolhe uma antologia de 116 poemas que, formalmente, se dividem, sem qualquer ordem cronológica, em 60 poemas curtos com diferentes metros (1-60), 8 poemas longos (61-68) e 48 epigramas em dísticos elegíacos (69 – 116).

A poesia de Catulo trata dois grandes temas: a poesia de amor e a poesia satírica (havendo, claro está, muitos poemas que não caiem em qualquer destas duas categorias).

Nos poemas de amor, sobretudo os de menor extensão, Catulo mostra todo o seu temperamento emotivo, entre o amor exaltado (5) ao ódio maledicente (58), na sua relação com Lésbia. No entanto, Lésbia não tem o exclusivo dos poemas de amor ou eróticos, havendo outros que são dedicados a outras pessoas (homens e mulheres).

A poesia satírica é, por vezes, extremamente violenta e mesmo obscena, dirigida, entre outros, a ex-amigos, outros amantes de Lésbia, poetas exteriores ao seu grupo, políticos, entre eles, César (93) e Cícero (49) e ainda outras personagens actualmente desconhecidas. Apesar de muitos deles serem violentos e cruéis, outros há em por eles passa uma fina ironia (84).

Mas, há muitas poesias que não se enquadram nestes dois temas principais. Catulo, por exemplo, celebra, de um modo igualmente exuberante, os seus amigos (13) e companheiros literários (95). São também muito conhecidos os seus poemas em que celebra a casa de campo familiar de Sírmio (31) ou a sentida homenagem ao seu irmão falecido (101)

Catulo e os poetae noui

Catulo pertenceu a um grupo de poetas que foi denominado neoteroi ou poetae noui, sendo que, deste grupo, apenas as obras de Catulo chegaram até nós. Esta denominação, feita, por exemplo, por Cícero (Att., 7.2.1) tinha uma conotação negativa, pois no que toca à poesia, Cícero apreciava o muito tradicional Énio (239-169? a.C.).

Mas em que consistiu a revolução feita pelos poetae noui? Como se disse, o único poeta cuja obra nos chegou foi Catulo. Por isso, é para a sua obra que temos de olhar para tentar definir em que consistiu a sua inovação.

Não foi certamente Catulo quem introduziu a poesia lírica em Roma, mas foi ele quem lhe deu, definitivamente, as suas lettres de noblesse na cidade. Na sua obra, os poemas líricos, isto é, os poemas curtos e os epigramas distinguem-se bem dos poemas narrativos ou elegíacos. Na maioria dos poemas líricos, Catulo expressa todos os seus amores e desamores, gostos, amizades e inimizades.

Nestes poemas há uma influência notória de poetas gregos arcaicos como Safo e Arquíloco, por exemplo. Aliás o pseudónimo Lésbia é uma clara homenagem a Safo (que como se sabe era natural da ilha de Lesbos). Estes poetas gregos arcaicos foram imitados Calímaco e outros poetas alexandrinistas e, mais tarde, pelos poetae noui. Catulo introduziu na poesia lírica latina a métrica eólica (que tinha sido utilizada por Safo), embora Horácio (65 a.C. – 8 a.C.), alguns anos mais tarde, reclame, para si próprio, esse feito (Carmina, 3.30).

Por outro lado, os poetae noui foram também influenciados pelos poetas alexandrinistas. Quem eram estes alexandrinistas? Eram poetas do período helenístico, não do período clássico da literatura grega, e que tiveram Alexandria como o seu centro de difusão. Entre estes poetas encontramos nomes como Apolónio de Rodes (sec. III a.C.), Teócrito e Calímaco (sec. IV-III a.C.) ou Euforião (III-II a.C.).

Assim, em Alexandria, sob o reinado dos Ptolomeus, desenvolveu-se uma corrente poética que se formou em oposição aos poetas do período clássico e que renovou os cânones da poesia grega, tanto nas formas como nos temas, acabaram-se a descrição dos feitos de deuses e heróis, e uma grande curiosidade por histórias de mitologia pouco conhecidas ou obscuras. Isto fazia realçar a sua erudição. Estas histórias rebuscadas são vertidas em composições breves, muito trabalhadas. Cultivavam a brevidade e gostavam do pormenor e do perfeccionismo, realçados por novas criações vocabulares.

No caso de Catulo, entre os seus poemas longos, as suas três elegias (65, 66 e 68) bem como os poemas 63 sobre Attis e 64 sobre as bodas de Tétis e Peleu são directamente inspirados pela escola de Alexandria.

O legado de Catulo

Apesar de a sua obra se ter quase perdido e ser quase totalmente desconhecida durante a maior parte da Idade Média, a influência de Catulo foi enorme, para além na influência mais imediata que teve sobre os poetas romanos que lhe sucederam, como é o caso de Horácio ou Ovídio (43 a.C. – 17 d.C.), por exemplo.

A originalidade Catulo na paisagem da poesia latina provém, talvez, da franqueza com que fala dos seus estados de alma seja sobre as suas relações pessoais, seja sobre o seu tempestuoso relacionamento com Lésbia. É, como disse Américo da Costa Ramalho “uma das vozes mais genuínas de toda a poesia de Roma”.

quarta-feira, 5 de abril de 2006

Catulo - Parte I

Como prometido quando escrevi sobre Vergílio, passo agora a escrever sobre Catulo, um dos meu poetas preferidos. Hoje é a primeira parte, a sua biografia, ficando para amanhã a sua obra.

Introdução

Catulo foi um dos mais importantes poetas latinos do final da República, que influenciou muitos poetas romanos que se lhe seguiram, como Ovídio, Horácio ou Vergílio. Pertenceu a um círculo de poetas que romperam com a tradição romana da época, o que lhes valeu o epíteto, com conotações negativas, de poeta noui. Depois da queda do império, só no início do séc. XIV é que foi encontrado um exemplar completo da recolha dos seus poemas (apesar de Isidoro de Sevilha, séc. VII, nas suas Origines, ter citado um texto de Catulo). A partir daí a sua influência voltou a sentir-se sendo, actualmente, a sua obra amplamente estudada.

Biografia

Apesar da sua importância como poeta, pouco se sabe da vida de Catulo. A sua biografia terá sido feita por Suetónio em De Viris Illustribus, entre os poetas latinos, mas esta obra não chegou até nós. Assim, a maior parte daquilo que sabemos é pelas notas autobiográficas nos seus poemas.

Acredita-se, apesar de não haver certezas, de que terá nascido em Verona ou, pelo menos, perto de Verona, na Gália Cisalpina no seio de uma família nobre e rica em 87 – 84 a.C. As fontes antigas, por exemplo, Ovídio (Amores, 3. 15. 7) e Marcial (Epr., 14. 195) referem Verona como local de nascimento. O seu pai recebia César em casa quando este passava por Verona. No entanto, terminada a infância, encontramo-lo, muito jovem já fixado em Roma. Aí, moveu-se num meio culto onde encontrou, entre outros o historiador Cornélio Nepos e o gramático Valério Catão.

A sua vida em Roma foi muito agitada no meio da alta sociedade romana, onde conheceu muita gente importante do seu tempo, tendo mesmo incompatibilizado com alguma destas pessoas, tendo, por exemplo, versos violentos contra Júlio César (que no entanto se reconciliou com ele). Também Cícero foi visado por Catulo (o sentimento era recíproco, Cícero não gostava dos poeti noui).

Sabemos ainda que em 57 a.C. acompanhou o seu amigo Mémio à Bitínia, onde Mémio tinha recebido o cargo de governador. Todavia, em 56 a.C., Catulo voltou para Roma. Esta foi a única vez que se envolveu em política na sua vida. Enquanto esteve no Oriente, aproveitou para visitar o túmulo de um seu irmão mais velho, perto de Tróia, que tinha morrido uns anos antes e cujo desgosto de Catulo ficou bem expresso num dos seus poemas (101).

Também da sua biografia consta a sua relação com Lésbia. Esta relação é talvez o maior acontecimento da sua vida e, por isso, amplamente retarda na sua poesia. Lésbia é, calor está, um pseudónimo (cf. Ovídio, Tristia, 2. 427-428). Segundo a interpretação tradicional (cf. Apuleio, Apol. 10) o seu verdadeiro nome era Clódia, uma das três irmãs de P. Clódio Pulcher, casada com Q. Metelo Célere (que morreu em 59 a.C., envenenado pela mulher segundo as más línguas) e que foi cônsul em 60 a.C.

Depois da morte de Metelo, Clódia teve vários amantes. Cícero no seu Pro Caelio, um discurso judiciário (56 a.C.) em defesa de M. Célio Rufo, ex-amante de Clódia que foi acusado por esta de a querer envenenar, faz dela um retrato cruel. A relação entre Catulo e Clódia foi, a acreditar nos poemas que lhe são dedicados (uns de grande delicadeza, outros bastante ofensivos), bastante conflituosa.

Catulo teve uma vida curta, pois terá morrido entre 54-52 a.C.

domingo, 16 de outubro de 2005

Publius Vergilius Maro

Há 2075 anos (se as contas tradicionais estiverem certas) nasceu um dos grandes poetas da Antiguidade, aquele que Paul Claudel chamou o maior génio produzido pela humanidade e que mais do que um poeta, foi um profeta de Roma, um "vate", um poeta-profeta. Foi considerado o príncipe dos poetas, mas também o Poeta do Prícipe, pois foi o poeta mais conceituado do seu tempo, mas também foi protegido por Augusto.

Virgílio foi o cantor da tradição, criadora e conservadora da grandeza de Roma. Fez em verso aquilo que Tito Lívio (Pádua, 59 a.C. - ib. 17 d.C.), com o seu Ab Vrbe Condita, tinha feito em prosa. Em Portugal, temo um par que se aproxima deste: João de Barros, com as suas Décadas, e Luís de Camões com Os Lusíadas.

Virgílio nasceu a 15 de Outubro (segundo o calendário romano nos idos de Outubro. Em Março, Maio, Julho e Outubro os idos eram a 15, nos outros oito meses eram a 13), tradicionalmente, no ano de 70 a.C., no seio de uma família modesta, em Andes, perto de Mântua. Por esse motivo era conhecido por “Mantuanus”. Foi Apuleio, no séc. II d.C., que lhe chamou, pela primeira vez, “Mantuanus poeta”, depois com Macróbio, no séc. V d.C., passa a ser chamado apenas “Mantuanus”.

Já Ovídio (43 a.C. – 8 d.C.), in Amores (3. 15. 7), tinha escrito sobre o seu nascimento perto de Mântua:
Mantua Vergilio, gaudet Verona Catullo
Mântua alegra-se com Vergílio e Verona com Catulo.
A origem era frequentement citada quando se fala de algum escritor da Antiguidade. Gaius Valerius Catullus (Catulo, de quem falarei proximamente) era conhecido como o Veronensis, por exemplo, por ter nascido em Verona (c. 87 a.C. - c. 54 a.C.).

A vida de Vergílio decorre numa época muito conturbada da vida da cidade de Roma, entre o fim da República e o início do Principado.

Entre 42 e 39 a.C., Virgílio escreveu a sua primeira obra, que publicou em 39 a.C. Demonstra o seu perfeccionismo pela demora em publicar, pois procurava sempre a forma mais perfeita e nunca estava contente com o que escrevia.

A obra então publicada chama-se Eclogae, isto é, em português, antologia, colectânea, selecção, florilégio. No entanto, a palavra sofreu uma evolução semântica e passou a designar as poesias pastorais, as bucólicas. Por isso, muito mais tarde, “Eclogae” passou a significar “Bucólicas” (tradução actual).

Constituída por 9 bucólicas, não estão dispostas por ordem cronológica, pois, por exemplo, a 9.ª foi escrita antes da 1.ª, que é a que abre a obra. As Eclogae foram um sucesso completo e em 37 a.C. o autor teve que fazer uma reedição onde incluiu mais uma égloga, a décima. As églogas mais conhecidas são a 1.ª e a 4.ª (e também a 2.ª).

Devido ao seu perfeccionismo, Virgílio dedicava-se de corpo e a alma à obra que estava a escrever. De 39 a 29 a.C., dedica-se a compor a sua obra mais perfeita, mas não a mais conhecida, Georgicon (As Geórgicas), poema didáctico sobre os trabalhos agrícolas.

Nestes 10 anos houve uma profunda alteração na vida política. O 2.º triunvirato é dissolvido. Em 36 a.C., Lépido é deposto e em 30 a.C., Marco António suicida-se juntamente com a sua amante. Marco António era casado com Octávia, irmã de Octávio, e repudiou a sua legítima esposa por causa de Cleópatra. Isto era uma ofensa para Octávio e por isso o Senado declarou guerra a Cleópatra. Depois da guerra, Octávio fica como senhor absoluto de Roma e em 27 a.C. o Senado dá-lhe o título de Augusto.

Virgílio também levou 10 anos a compor a Aeneidos (A Eneida), pois morreu em 19 a.C. Deixou o poema incompleto, ou pelo menos, não o deixou como queria.

No ano de 19 a.C., Virgílio empreendeu uma viagem à Grécia pois queria ver os locais onde decorria o início do poema, para poder descrevê-los com exactidão. No entanto, adoeceu em Mégara, no istmo de Corinto. Pressentiu a morte e pediu que o repatriassem, vindo a falecer em 21 de Setembro em Brindes (Brundusium ou Brundisium em latim). Toda a sua vida foi relativamente doente, sofria, principalmente, do fígado. Também sofria muito de dores de cabeça.

Como era um perfeccionista, pediu que queimassem a Eneida. Mas, Augusto não cumpriu esta última vontade de Vergílio. Augusto encarregou um amigo, Lúcio Vário, de publicar o poema. No entanto, deu ordem para publicar o poema exactamente como Virgílio o tinha deixado. Por esse motivo, na Eneida, há vários versos aos quais falta o 2.º hemistíquo, pois Virgílio não teve tempo para os completar.

Também havia versos completos das Geórgicas na Eneida. Foram versos utilizados por ele para encher e que, depois, seriam substituídos. Por ter consciência disso, Virgílio queria que o poema fosse queimado. No entanto, a Eneida só é imperfeita no seu sentido etimológico, isto é, por estar inacabada.

Virgílio foi sepultado junto de uma estrada, aquela que ligava Nápoles a Puzzuoli (em latim, Puteoli). Havia a ornar o seu túmulo um epitáfio que apenas chegou até nós por transmissão indirecta. Este epitáfio terá sido redigido pelo próprio Virgílio, por dois motivos: simplicidade vocabular e pela modéstia, não emitindo qualquer juízo de valor e tem, além disso, uma alusão mitológica que era muito ao gosto de Virgílio.

O epitáfio era composto por um dístico elegíaco, isto é, um hexâmetro dactílico + pentâmetro dactílico:
Mantua me genuit; Calabri rapuere, tenet nunc
Parthenope: cecini pascua, rura, duces

Mântua gerou-me; a Calábria arrebatou-me; agora possui-me
Partenope (Nápoles): cantei as pastagens, os campos, os heróis
O primeiro comentador da obra de Virgílio, Sérvio (Maurus Servius Honoratus, séc. IV – V d.C.), in Vergilii Ainedos Librum primum commentarius, associou as 3 obras publicadas de Virgílio a 3 grandes amigos que teriam tido influência nas respectivas obras:

Asínio Polião terá sugerido a Virgílio que imitasse Teócrito e compusesse as Bucólicas. Mesmo que não seja inteiramente verdade, o que Sérvio diz tem um fundo de verdade.

Ainda segundo Sérvio, foi Mecenas que pediu a Virgílio que ele compusesse as Geórgicas. Mais uma vez, mesmo que não seja inteiramente verdade, o certo é que as Geórgicas favoreciam a política de valorização rural de Mecenas. Tinha havido um êxodo das pessoas dos campos para a cidade. As Geórgicas cantam as vantagens da vida do campo.

Sérvio diz ainda que a Eneida foi sugerida por Augusto. Certo é que a Eneida é um louvor indirecto a Augusto. Este estava tão interessado na sua publicação, que desrespeitou a vontade de um moribundo e mandou publicá-la.

Sabemos que Virgílio escreveu poesia na sua juventude que só apareceu numa colectânea muito mais tarde. Essa colectânea, chamada Appendix Vergiliana é composta por poemas supostamente escritos por Virgílio na sua juventude. Supostamente escritos porque a maior parte não foram compostos por ele. Desta colectânea só um pequeno número de poemas saiu da pena de Virgílio.

No entanto tem um aspecto muito importante: dá-nos a conhecer o movimento cultural em que Virgílio conviveu e, por outro lado, mostra a sua enorme popularidade. Muita gente escrevia poesia para que elas fossem tomadas como sendo de Virgílio.

Na Antiguidade era muito mais apreciada uma boa imitação do que um mau original. Imitar era uma forma de homenagem. Por isso, escreviam à maneira de...

Algumas poesias são mesmo de Virgílio e encontramos um Virgílio diferente das obras publicadas, com veia satírica, que aproximavam estas poesias das “nugae” de Catulo (pequenas composições escritas a propósito de tudo e de nada).

Tal está de acordo com a escola literária de Catulo e à qual, de certa forma, Virgílio pertencia, o Alexandrinismo. Na Eneida há uma simbiose perfeita entre o alexandrinismo e homerismo. Uma das características do alexandrinismo era estas pequenas composições, por vezes corrosivas e cheias de ironias.

Virgílio não era tão virulento quanto Catulo por uma questão de temperamento. No entanto as pessoas associavam Virgílio a Catulo como demonstra o poema acima referido de Ovídio.

No entanto, nos seus poemas de juventude demonstra também a sua ironia. O poema que se segue é uma poesia muito ao gosto dos alexandrinistas, cheia de ironia.
ite hinc, inanes, ite, rhetorum ampullae,
inflata rhoeso non Achaico uerba,
et uos, Selique Tarquitique Varroque,
scholasticorum natio madens pingui
ite hinc, inane cymbalon iuventutis.
tuque, o mearum cura, Sexte, curarum,
uale, Sabine, iam ualete, formosi.
nos ad beatos uela mittimus portus
magni petentes docta dicta Sironis
uitamque ab omni uindicabimus cura.
ite hinc Camenae uos quoque. ite iam sane,
dulces Camenae - nam fatebimur uerum,
dulces fuistis -: et - tamen meas chartas
reuisitote, sed pudenter et raro.
(catalepton V (ca. 50 a. Chr. n.))

Ide-vos daqui, ide, ocos empolamentos de retórica
palavras inchadas com estalhadarço não ático
E vós, o Célio, ó Tarquício, ó Varrão
Corja de pedantes a pingar de gordura
Ide-vos daqui, címbalo louco da minha juventude.
E tu, ó Sexto Sabino, cuidado dos meus cuidados
fica bem: ficai bem meus caros
Nós levantamos ferro em direcção aos pontos prósperos
Procurando doutas doutrinas do grande Sirão
E libertaremos a vida de todos os cuidados.
Ide-vos daqui, Musa; apre! Vós também ide já
Doces Musas (confessaremos a verdade,
fostes doces): e contudo no futuro
visitai de novo os meus escritos, mas discretamente e poucas vezes.
Virgílio pensava dedicar-se à filosofia epicurista. E aqui faz mais uma tentativa e, neste poema, despede-se dos seus amigos. Mas antes, denuncia os excessos da escola asiática de retórica, insultando os seus mestres. É que Virgílio também tentou a retórica, mas faltava-lhe a capacidade de improvisação essencial a um orador.

O discurso retórico do exórdio até ao epílogo. Era, muitas vezes, escrito em casa e memorizado para depois serem proferidas de cor. A memória era muito importante para um orador.

O exórdio e o epílogo eram decorados, as restantes partes (enunciação da tese e prova) eram improvisadas. Ao chegar a casa é que escrevia o que se tinha dita no Fórum, p. ex., Cícero. Por isso, os seus discursos que hoje lemos não são exactamente aqueles que ele proferiu no Fórum. Mas, por motivos vários (políticos, estéticos, etc.), eles podiam alterar aquilo que se tinha proferido. É natural que ao querer escrever o discurso para a posteridade, o orador alterasse o discurso.

Havia 3 escolas de retórica: a ática, a asiática e a de Rodes. Os oradores da escola ática diziam apenas o essencial com um discurso simples e despido de adjectivação. A mesma coisa acontecia com os gestos. A sobriedade das palavras tinha que ter correspondência na sobriedade dos gestos.

A escola asiática situava-se no pólo oposto. Grande exuberância de palavras, sobrecarga de adjectivos, muitas figuras de estilo, muitos gestos, gritos, etc. Hortênsio era um orador da escola asiática a quem Cícero pôs o nome de bailarino.

A escola eclética, de Rodes, era a seguida por Cícero. Era o meio-termo entre as outras duas. Escolhia o que havia de melhor nelas. Procurava o ponto de equilíbrio entre a extrema sobriedade da escola ática e a extrema exuberância da escola asiática.

Ora, Virgílio nunca poderia ser um orador porque não tinha capacidade de improvisação. Ele era um perfeccionista que nunca estava contente com o que escrevia. Suetónio (Vita Vergili) diz que ele tinha a aparência de homem inculto e pouco hábil na conversação:
... in sermone tardissimum eum ac paere indocto similem fuisse

... que ele foi muito inábil na conversação e quase parecia inculto
Um aspecto de camponês, alto e moreno, mas muito tímido, tendo dificuldade em conviver em sociedade. A eloquência não era o seu forte, mas lia os seus versos com uma elegância admirável.

Mas, ainda na juventude, Virgílio escreveu o epitáfio irónico a um lanista (mestre de gladiadores na Roma Antiga). Este lanista, de nome Balista, era o perigo n.º 1, isto é, uma pessoa nada recomendável.

Este epitáfio é um dístico elegíaco. Trata-se de utilizar uma forma nobre para fazer um ataque. Esta desadequação entre a forma e conteúdo é que torna irónico este epitáfio, torna-o numa paródia. Mais uma poesia de carácter alexandrinista (alexandrinismo pós-catuliano).
Monte sub hoc lapidum tegitur Ballista sepultus;
Nocte die tutum carpe, uitaor, iter.

Debaixo deste monte de pedras está sepultado Balista;
De noite e dia, ó viandante, toma o [teu] caminho [em] segurança.
Os alexandrinistas preconizavam pequenas composições poéticas, insurgindo-se contra o comprimento exagerado dos poemas homéricos. Surgiram como reacção contra o homerismo. Virgílio fez a síntese entre o homerismo e o alexandrinismo. A Eneida é um poema longo, mas não tão longo como a Ilíada. Na Eneida não se encontram as fórmulas próprias da composição oral porque os alexandrinistas condenam-nas. Virgílio faz a simbiose, associando dois contrários o que parecia impossível.

O alexandrinismo preconiza a forma trabalhada, o requinte da fórmula. Esta característica está de acordo com o perfeccionismo de Virgílio. O alexandrinismo era erudito, o que também estava de acordo com Virgílio, o erudito dos eruditos.

Expressão sóbria, mas totalmente plena. Dizer o indispensável, mas dizer tudo sem faltar nada. Também os alexandrinistas preconizavam esta característica, que vamos encontra em Virgílio.

Ele foi um autor da época clássica, pelo que tem na sua obra as características fundamentais do classicismo:

- Simetria
- Harmonia
- Equilíbrio

(Texto baseado nos apontamentos tirados, há já bastantes anos, nas aulas de Latim II da Dra. Ana Paula Quintela, na FLUP)

sexta-feira, 28 de janeiro de 2005

Carlos Magno

Faz hoje 1191 anos que morreu Carlos Magno, Imperador dos Francos. Foi a 28 de Janeiro de 814. Antes de continuar a série de artigos intitulados "Humanae Litterae", aproveito esta data para, tendo eu mencionado parte II o chamado Renascimento Carolíngio, apresentar uma passagem da Vita Karoli Magni de Einhard (770-840), biógrafo de Carlos Magnos, representando, é claro que num registo elogioso, o esforço que um rei, da Alta Idade Média, fez para se elevar a um nível superior ao da sua época (minha tradução):

25

[Carlos Magno] tinha o dom de uma eloquência extraordinária e conseguia exprimir claramente fosse o que fosse. Não satisfeito com o domínio da língua materna, aprendeu também línguas estrangeiras, em particular o Latim de tal modo que o falava tão bem como a sua língua materna, no entanto era capaz de compreender melhor o Grego do que o falava. Na verdade, era tão eloquente que poderia passar por professor de eloquência.

Cultivou com extrema aplicação as artes liberais, tendo os seus professores em grande estima, cumulando-os com grandes honras. Na aprendizagem da gramática foi díscipulo do idoso diácono Pedro de Pisa, nas demais disciplinas teve como mestre Albino de Britânia, com o cognome de Alcuíno, um homem de origem saxónica, homem em todos os aspectos douto, com o qual dedicou muito tempo e esforço ao estudo da retórica, dialéctica, e principalmente astronomia. Aprendia aritmética e observou, ávido de saber, com uma atenção penetrante, o movimento dos astros.

Tentou escrever e costumava manter tabuinhas e placas na cama sob o travesseiro, para que nas horas livres pudesse habituar a mão a formar as letras; no entanto, teve pouco sucesso pois começou os seus esforços fora da idade apropriada, em idade avançada.